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ATENÇÃO
E MEMÓRIA archivo del portal de recursos
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Geraldo José Ballone
Curso de Psicopatologia: Atenção e
Memória in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br
revisto em 2005
Uma maneira importante pela qual a percepção se torna
consciente é através da Atenção que, em essência, é a focalização consciente e
específica sobre alguns aspectos ou algumas partes da realidade. Assim sendo,
nossa consciência pode, voluntariamente ou espontaneamente, privilegiar um
determinado conteúdo e determinar a inibição de outros conteúdos vividos
simultaneamente. Portanto, reconhece-se a Atenção como um fenômeno de tensão, de
esforço, de concentração, de interesse e de focalização da consciência.
Atenção pode sofrer alterações em todos os transtornos mentais e emocionais.
Mesmo quando não existam alterações psíquicas tão evidentes, como é o caso da
ansiedade simples, a Atenção pode apresentar oscilações. Uma série de fatores
intra-psíquicos pode modificar a sua eficácia da Atenção mesmo dentro dos
limites da normalidade.
Vários estados emocionais podem alterar a capacidade
de Atenção, ora alterando sua intensidade, ora alterando sua tenacidade ou sua
vigilância. Sob a influência de determinados alimentos, de bebidas alcoólicas e
de substâncias farmacológicas, a Atenção também pode experimentar alterações em
seu rendimento e em sua eficiência.
A Memória, no sentido estrito, pode ser entendida como a soma de todas as lembranças existentes na consciência, bem como as aptidões que determinam a extensão e a precisão dessas lembranças . De modo geral a Memória necessita de duas funções neuropsiquícas fundamentais; a capacidade de fixação, que é a função responsável pelo acréscimo de novas impressões à consciência e graças à qual é possível adquirir novo material mnemônico, e a capacidade de evocação, ou reprodução, pela qual os traços mnêmicos são revividos e colocados à disposição livremente da consciência.
A Atenção pode ser entendida como uma atitude psicológica através da qual
concentramos a nossa atividade psíquica sobre um estímulo específico, seja este
estímulo uma sensação, uma percepção, representação, afeto ou desejo, a fim de
elaborar os conceitos e o raciocínio. Portanto, de modo geral a Atenção parece
criar a própria consciência.
Alguns autores consideram a Memória em si, um processo puramente fisiológico, enquanto a fixação e a evocação mnêmicas das lembranças seriam atos psíquicos e vividos pelo indivíduo.
Para que uma lembrança seja eficaz é indispensável a compreensão do objeto sobre o qual se polariza a Atenção, condição essa que depende da afetividade e do interesse. Kraepelin já afirmava a lembrança poderia persistir por mais tempo quanto mais claramente (mais compreensivamente) se percebia o estímulo original e quanto mais numerosas e intensas fossem suas ligações com o resto do conteúdo da consciência. Portanto, as lembranças perduram por mais tempo quanto mais são reforçadas pela repetição.
A Memória como Parte Importante da Consciência
Para estudar os
mecanismos da memória é didático fazer analogia com o mecanismo dos
computadores. Tal como os os computadores, nossa mente está equipada com dois
tipos básicos de memória: "a memória imedita" (de trabalho) para tratar a
informação do presente momento, e a memória de longo prazo, usada para arquivar
durante longo tempo.
Ao contrário do que se pode pensar, nosso cérebro
não está continuadamente registando tudo que nos acontece para, num segundo
momento, selecionar e apagar o que não é importante. A maior parte dos estímulos
com os quais estamos lidando permanece por um brevemente tempo na memória, mais
precisamente, na memória imediata ou de trabalho. A analogia que se faz com o
computador é com a chamada memória RAM, ou seja, com a memória de acesso
aleatório da máquina (Random Access Memory).
Depois de algum tempo esses
estímulos trabalhados pela memória imediata se evaporam dando lugar à outros. A
memória imediata nos permite realizar os cálculos de cabeça, permite reter
números de telefone durante algum tempo, permite continuar um diálogo baseado no
início da conversa, permite saber o nome do interlocutor durante algum tempo
(diretamente proporcional à importância deste para nós).
Continuando
nossa analogia, podemos dizer que a memória de longo prazo seria como o disco
rígido do computador, registando fisicamente as experiências passadas na região
do cérebro designada córtex cerebral. A córtex, ou a camada exterior do cérebro,
contém aproximadamente dez bilhões de células nervosas, as quais se comunicam
intensamente trocando impulsos eléctricos e químicos.
Sempre que um
estímulo atinge nossa consciência, seja uma imagem, som, ideia, sensação, etc.,
ativa-se um conjunto destes neurônios, modernamente chamado de "assembléia
neuronal". A teoria baseada nas assembléias neuronais representa um modelo muito
convincente para a formulação de uma hipótese a respeito da construção da
consciência. Segundo essa teoria, o pensamento consciente é gerado quando vários
neurônios de diversas colunas se unem funcionalmente e, atuando harmonicamente e
em conjunto, constroem uma assembléia, iniciando assim a formação de um
determinado estado consciente. Depois desse novo estado de consciência esses
neurônios do conjunto que participou do estímulo nem sempre retomam o estado
original. Eles costumam fortalecer as ligações uns com os outros, tornando-se
mais densamente interligados.
Quando isso acontece constroi-se uma
memória consciente, e o que quer que estimule essa rede ou assembléia trará de
volta a percepção inicial sob a forma de recordação. O que entendemos como
recordações são, afinal, padrões de ligação entre células nervosas. Uma
recordação recém-codificada pode envolver milhares de neurónios abarcando todo o
córtex.
Segundo a teoria dos conjuntos de células envolvidas na
consciência e memória, os neurônios são capazes de se associarem rapidamente,
formando grupos (assembléias) funcionais para realizarem uma determinada tarefa
ou apreenderem um determinado estímulo. Uma vez que esta tarefa esteja
terminada, o grupo se dissolve e os neurônios estão novamente aptos a se
engajarem em outras assembléias, para cumprirem uma nova tarefa . Portanto, esse
conjunto, rede ou assembléia de neurônios dilue-se, caso não seja reutilizada,
mas, se a ativarmos repetidamente, o padrão de ligações incorpora-se cada vez
mais nos padrões de nossos tecidos nervosos.
É devido a essa organização
e dissolução dinâmica das assembléias neuronais que podemos comparar a atividade
mnêmica fugaz com a memória RAM do computador. Há, ainda, um aspecto
quantitativo acerca dessa assembléia neuronal, segundo a qual, quanto maior o
número de neurônios recrutados, maior será o tamanho dessa assembléia e, em
conseqüência, maior será a recém criada consciência ou memória, em termos de
intensidade e tempo de duração. Contrariamente, se for pequeno o número de
neurônios recrutados, a memória resultante será pequena em intensidade e
duração.
Os estímulos são registrados na memória de longo prazo mediante
repetição ou através de sua carga afetiva. Enquanto a decisão de armazenar ou
diluir uma informação possa ser voluntária, a eficácia dessa memorização nem
sempre depende de nossa vontade. Quem garante a eficácia da memória,
indiretamente da consciência que se tem do vivido, é um atributo automático do
hipocampo.
O hipocampo é uma pequena estrutura bilobular alojada
profundamente no centro do cérebro. Tal como o teclado do nosso computador, o
hipocampo é como uma espécie de posto de comando. À medida que os neurónios do
córtex recebem informação sensorial, transmitem-na ao hipocampo. Somente após a
resposta do hipocampo é que os neurónios sensoriais começam a formar uma rede
durável (assembléia). Sem o "consentimento" do hipocampo a experiência
desvanece-se para sempre.
É aqui que entra a carga afetiva necessária
para que o estímulo se fixe na memória de longo prazo. A atitude de
"consentimento" do hipocampo parece depender de duas questões. Primeiro, a
informação tem algum significado emocional, portanto, tem que ter alguma
importância afetiva. O nome de uma pessoa muito atraente tem mais probabilidade
de conseguir "autorização" do hipocampo para se fixar no "disco rígido" de nosso
computador do que o nome do jornalita que escreve o obituário do jornal. É assim
que nossa consciência se constrói, sempre em conformidade com nossos próprios
interesses emotivos.
A segunda atitude do hipocampo é uma imediata
analogia, ele avalia é se a informação que está chegando no cérebro tem relação
com alguma coisa que já esteve por ai, ou que já sabemos. Ao contrário do
computador, que armazena separadamente os factos relacionados, o cérebro procura
constantemente fazer associações. Se o estímulo recém chegado tem alguma relação
ou correspondência com algum material já armazenado, esse novo fato terá mais
facilidade de agregar-se ao dinamismo psíquico. Em suma, usamos as assembléias
elaboradas pela experiência passada para captar novas informações.
Através da formação continuada de assembléias neuronais os fenômenos
conscientes se sucederiam, continuamente, cada um diferindo dos demais em
duração e intensidade, de acordo com o tamanho das assembléias. Esse dinamismo
faz com que a substituição de uma vivência consciente pela que se segue seja
muito rápida, conferindo à consciência seu aspecto de continuidade. Aqui devemos
lembrar que, também continuadamente, o hipocampo vai selecionando o que fica na
memória de longo prazo e o que pertence apenas à memória imediata.
De
qualquer forma forma-se uma assembléia neuronal e, numa ínfima fração de tempo,
a consciência da vivência se formaria. Essa consciência seria recém formada a
partir da mobilização simultânea de um determinado número de neurônios por um
período de tempo variável e, imediatamente depois de terminada sua função, seria
substituída por outra assembléia (consciência), depois por outra e,
sucessivamente outras.
Esses arranjos neuronais obedecem uma estrutura muito
pessoal que, em seu conjunto, acabam por corresponder (ou contribuir para) ao
perfil afetivo e sensibilidade de cada um e, quem sabe até, para a vocação de
cada um. É por isso que um mesmo quadro pode impressionar diferentemente as
várias pessoas que o observam; alguns se sensibilizam com as tonalidades, outros
com o tema, outros até com a combinação quadro-moldura, outros só conseguem
memorizar o preço e assim por diante. Podemos constatar essa experiência
facilmente retirando o quadro da vista das pessoas e pedindo para elas
descreverem o que viram: ... cores fortes.... tema triste.... muito grande....
deve valer muito... e assim por diante.
Assim sendo, as condições capazes
de perturbar o hipocampo acabam por prejudicar a memória e, conseqüentemente, a
integração da consciência. A doença de Alzheimer destrói gradualmente esse
órgão, portanto, destrói a capacidade para formar novas memórias. O
envelhecimento normal também pode causar danos mais sutis. Alguns estudos
sugerem que a massa encefálica decresce, a grosso modo e variavelmente, de cinco
a dez por cento a cada dez anos.
Exceto em casos mais patológicos, como
por exemplo na doença de Alzheimer ou nos problemas vasculares, a idade por si
só parece não perturbar a nossa memória significativamente. A idade, quando
muito, torna as pessoas um pouco mais lentas e menos precisas e, embora as
médias apontem para o declínio com a idade, alguns octogenários continuam mais
incisivos e rápidos que os adolescentes.
Evidentemente existem
circunstâncias clínicas capazes de prejudicar o rendimento da memória ao longo
dos anos. A pressão sanguínea elevada cronicamente pode prejudicar a função
mental. Alguns estudos constatam que ao longo dos anos, as pessoas hipertensas
perdem duas vezes mais capacidade cognitiva que aqueles que apresentam tensão
sanguínea normal. Também o excesso de álcool ou o funcionamento deficiente da
glândula tiróide, assim como a depressão, a ansiedade e a simples falta de
estímulo estão associados ao prejuízo da memória.
O Estresse e a Memória
Atualmente um novo problema parece estar
associado ao desgaste da capacidade de fixação. É o excesso ou sobrecarga de
informação. As informações dos tempos modernos chegam até nós através dos mais
variados meios: jornal, revista, rádio, televisão, cinema, fax, carta, e-mail,
internet, escola, cursos, etc... Muitas vezes essa avalanche de informações
superam nossa capacidade de apreensão eficaz.
Essa dificuldade de
apreensão e, conseqüentemente, de memorização tem muito a ver com o estresse por
excesso de estimulação e solicitação. Evidentemente que, em curto prazo, o
estresse até habilita nosso cérebro a reagir mais prontamente aos estímulos,
sendo essa a função primária da ansiedade do estresse. Em longo prazo,
entretanto, o desgaste supera a eficiência.
Algumas pesquisas na área do
estresse calculam que, ao fim de cerca de 30 minutos, os hormônios do estresse
(adrenalina e cortizona) começam a desativar as moléculas que transportam
glucose para o hipocampo, deixando assim essa parte do cérebro com pouca
energia. Depois de períodos mais longos, os hormônios do estresse podem acabar
comprometendo seriamente as ligações entre neurónios e fazendo o hipocampo
reduzir ao máximo sua ação, tal como uma espécie de atrofia funcional. Esta
espécie de atrofia funcional é reversível se o estresse for curto, mas um estado
de estresse que demora meses ou anos, pode acabar inutilizando definitivamente
neurónios do hipocampo.
Como vimos acima, quem garante a eficácia da
memória, indiretamente da consciência que se tem do vivido, é um atributo
automático do hipocampo, portanto, havendo dano dessa estrutura cerebral a
capacidade de fixação mnêmica estará prejudicada.
O Estrogênio e a Memória
As pesquisas que relacionam o estrogênio
(hormônio feminino) com a memória foram estimuladas indiretamente, partindo da
observação de que as mulheres que tomavam estrogênio reduziam o risco de
contrair a doença de Alzheimer.
A a importância do estrogénio em relação
à memória verbal foi testado em mulheres jovens, antes e depois de serem
submetidas a tratamento para tumores uterinos. Os níveis de estrogênio dessas
mulheres decresciam fortemente depois de 12 semanas de quimioterapia, assim como
decresciam também os seus resultados nos testes de retenção da leitura. Mas,
quando metade dessas mulheres juntou estrogênio ao regime terapêutico, a memória
melhorou prontamente.
As razões para esse efeito protetor sobre a memória
atribuído ao estrogênio ainda não são claras, mas o hormônio parece catalisar o
desenvolvimento de neurônios no hipocampo e fomentar a produção de acetilcolina,
um composto (neurotransmissor) que ajuda as células cerebrais a se comunicarem.
Infelizmente, o uso de estrogênio também tem riscos, em especial para as
mulheres com predisposição para o câncer de mama.
Foco de Atenção
O aspecto para o qual se dirige a Atenção é chamado
de alvo (perceptual e motor), por isso e apropriadamente, podemos fazer uma
analogia didática do focalizar da consciência com um alvo de tiro. O elemento
que, em dado momento, constitui o objeto de nossa Atenção, ocupa sempre o ponto
central do campo da consciência. O centro desse alvo perceptual corresponde ao
grau máximo de consciência e é denominado foco da Atenção. Aí, tudo o que é
focal é percebido com Atenção em seu redor, porém, existem outros objetos ou
fenômenos psíquicos, os quais, sem ter abandonado o campo da consciência, deixam
de ser objeto de Atenção. Os círculos concêntricos mais próximos exprimem,
esquematicamente, a área subconsciente e o círculo mais afastado o inconsciente.
O elemento que, em dado momento, constitui o objeto de nossa Atenção, ocupa sempre o ponto central do campo da consciência, portanto, nossa capacidade para concentrar a atividade da consciência em uma só coisa acaba, forçosamente, excluindo total ou parcialmente as demais. Entre as partes deste conjunto composto pela consciência, subconsciente e inconsciente não é possível estabelecer limites de nítidos.
Aspecto Temporal da Atenção
Geralmente, a duração de um determinado
foco de Atenção é breve. Existe constante passagem da Atenção de uma parte da
realidade para outra e isso se dá por várias razões. De um lado, existe na
Atenção, como em todos os processos psicológicos, uma forma de saciedade. Esta
saciedade tende a inibir a continuidade de Atenção em determinada direção, como
se a pessoa estivesse continuadamente em busca de novidades perceptivas. A
Atenção tender a mudar, espontaneamente, depois de um período de focalização em
uma parte da realidade.
Outra razão para a passagem da Atenção de uma parte
da realidade para outra é obtenção de uma certa organização perceptual. É
difícil ou impossível, por exemplo, organizar o todo a ser percebido com um
único olhar. É preciso passos sucessivos de exploração para que cada parte ou
aspecto seja fixado por sua vez.
É importante esses aspectos temporais da organização perceptual e mesmo caso dos padrões estático de certos estímulos, a percepção adequada envolve, invariavelmente, mudanças sucessivas de focos de Atenção. Este é um elemento fundamental para o artista, por exemplo, o qual precisa, construir sua obra de arte de tal forma que o olho do observador seja dirigido numa direção determinada através do quadro ou da estátua. Sem esse elemento organizacional não seria possível a percepção dos detalhes alocados no objeto.
Mais uma razão para a passagem da Atenção de uma parte da realidade para outra é a limitação da quantidade de material que pode ser incluída no foco de Atenção, em cada momento considerado. Um hipotético olho cósmico, se existisse, poderia apreender simultaneamente completamente tudo de uma determinada situação mas, o ser humano e os organismos inferiores, entretanto, podem apreender apenas uma proporção limitada da realidade. Uma forma de estudar o problema do alcance máximo do foco de Atenção é através da análise da amplitude da apreensão.
Esta Amplitude da Atenção se refere ao número máximo de objetos que podem ser percebidos imediatamente. Espalhando um pequeno número de grãos de feijão numa mesa e olhando de relance, procuramos ver quantos grãos existem. Verificaremos que cometermos poucos erros quando os grão são em número de cinco ou seis mas, a partir desse número, começamos a errar mais. Portanto, nossa Atenção se desloca de tempos em tempos para outras partes da realidade porque é limitada a capacidade de apreendermos simultaneamente muitas coisas.
Sob este ponto de vista, a atividade mental consiste num vaivém perpétuo de focalizações da Atenção em acontecimentos interiores, em sensações, em sentimentos, em idéias e em imagens mentais que se associam ou se repelem, segundo as leis do dinamismo psíquico. Serão estes diferentes estados de Atenção que permitem o aspecto dinâmico na atividade da consciência.Em função da atividade predominante, distinguem-se 3 tipos principais de Atenção: sensorial, motora e intelectual.
Tipos de Atenção
Nossos 5 sentidos podem ser ativados
conscientemente para focalizar a Atenção sobre um determinado estímulo. Os
condicionamentos, muitas vezes inconscientes, podem proporcionar uma certa
atividade de espera, mais ou menos orientada, no sentido de confirmar ou não uma
determinada expectativa.
Ao acrescentar mais sal na comida, por exemplo, nosso paladar espera, com certa expectativa, constatar determinado gosto, assim como esperamos ver, momentos antes, determinada cena de acidente ao constatar a direção e velocidade de um carro de corridas. Trata-se da espera pré-perceptiva. Outras vezes, entretanto, quando os resultados fogem completamente da expectativa perceptiva, acontece uma espécie de choque sensorial que dá origem a um estado de surpresa.
Atenção Motora
Na Atenção motora, a consciência está concentrada na
execução de uma atividade física e muscular pré-programada. Ao olhar para um
objeto, por exemplo, a pessoa se inclina na direção desse objeto, e o mecanismo
ocular atua de forma que os olhos se dirijam ao objeto até que este caia na
fóvea; os músculos do cristalino se acomodam de forma que a imagem fique no foco
mais claro, etc. Ao ouvir um som baixo a pessoa estica o pescoço para a frente,
coloca sua mão atrás da orelha, e pode fechar os olhos a fim de eliminar os
estímulos visuais concorrentes na tentativa de selecionar um determinado objeto
(sonoro) como foco de sua Atenção. Talvez seja por isso que algumas pessoas têm
que tirar os óculos de sol para prestarem mais Atenção em sons ou imagens.
A Atenção motora se caracteriza também pela tensão estática dos músculos, juntamente com uma hipervigilância da consciência. Esta atividade de espera chamada por Pléron de "atividade imobilizante", e exige um grande consumo de energia.
Veja-se, por exemplo, a brincadeira de tapa nas mãos. Neste joguete um dos jogadores, aquele que dará os tapas, fica com as mãos espalmadas para cima, enquanto o outro coloca suas mãos sobre as mãos do primeiro. Repentinamente o primeiro tentará retirar suas mãos e estapear as mãos do segundo. Vence o mais rápido. O segundo deve retirar suas mãos, tão logo perceba que o primeiro iniciou o movimento de estapeá-lo.
O papel da eficiência da Atenção, nesses casos, consiste privilegiar os elementos automáticos da psicomotricidade, ao mesmo tempo em que reduz os elementos intelectuais eventualmente atrelados ao movimento. Esta forma de Atenção representa uma espécie de alerta às atividades musculares que devem responder prontamente a determinada situação no sentido de favorecer a adaptação.
Atenção Intelectual
Representa o ato de reflexão e de atividade
racional dirigidos na resolução de qualquer problema conscientemente definido.
Apesar da divisão da Atenção em Atenção Sensorial, Atenção Motora e Atenção
Intelectual, de certa forma a Atenção implica sempre em alguma atividade
intelectual, ora orientando os movimentos, ora dando sentido às percepções.
Afeto e Atenção
Um dos fatores individuais de maior influência no
processo da Atenção destacam-se as condições do estado de ânimo ou de interesse,
os quais podem facilitar ou inibir a mobilização da Atenção. Portanto, o
elemento afetivo tem significação determinante no processo da Atenção,
admitindo-se que a pessoa só dirige a Atenção aos estímulos que lhe despertam
interesse. De fato, ao constarmos que nossa Memória tem mais afinidade para as
coisas que nos despertam maior interesse, estamos falando antes, que nossa
Atenção (indispensável para a Memória) é mobilizada mais prontamente pela nossa
afetividade.
Nossa Atenção sobre algo é tanto mais intensa quanto mais
nos interessa esse algo, quanto mais desejamos conhecê-lo e compreendê-lo,
quanto mais isto nos proporcione prazer ou satisfação. É por isso que, durante
os episódios depressivos, onde o prazer e o interesse estão significativamente
comprometidos, a Atenção e a Memória estarão também severamente prejudicadas;
por falta de interesse e prazer.
Despertam mais nossa Atenção as coisas com as quais mantemos algum laço de interesse, alguma predileção. Passeando num shopping as pessoas detém-se (prestam Atenção) diante das vitrinas que lhes despertam maior interesse, que mais lhes mobilizam afetivamente. Ao estudarmos a sensopercepção também constatamos o fenômeno de predileção sensorial de acordo com as tendências afetivas, como é o caso do artista, capaz de perceber com mais acuidade a obra de arte. A Atenção seria a principal parte dessa predileção sensorial.
De acordo com o papel que determinado estímulo desempenha ou possa eventualmente desempenhar na vida pessoal, ele exercerá uma força maior ou menor de atração sobre a Atenção. A Atenção realiza uma seleção natural de seus objetivos em função da disposição pessoal, a qual tende a iluminar determinados objetos. A Atenção está sempre dirigida para algo conscientemente desejado e esse tipo de disposição da pessoa para com o objeto é chamado interesse. O interesse e a Atenção estão tão intimamente ligados que não é possível existir Atenção completamente desprovida de interesse (Stern).
Níveis e Distribuição da Atenção
Ao estudar a extensão do campo de
Atenção, julga-se muito mais importante a captação de uma totalidade ou captação
do todo significativo, que a quantidade de objetos que a serem captados pela
Atenção. Para William Stern, a Atenção é a condição imediata para a produção de
uma realização pessoal e suas características consistem num esclarecimento
consciente, na concentração de uma força psíquica disponível para o
esclarecimento da realidade.
A Atenção da pessoa, num determinado momento
pode estar distribuída de várias maneiras no campo da realidade. Pode estar
concentrada num único objeto, dando-se pouca Atenção ao resto, pode estar
difusamente espalhada, sem que uma parte específica esteja predominantemente em
foco ou, por fim, pode estar dividida entre vários objetos, quando então a
pessoa procura prestar Atenção, simultaneamente, a duas ou mais coisas. Quanto
maior a divisão da Atenção entre objetos, maior a perda de qualidade da Atenção
dada a cada parte.
Conforme vimos acima, a amplitude limitada da apreensão, e o fato de que quanto maior a divisão da Atenção menor a sua qualidade, acentuam a necessidade da organização perceptual. Quando algumas partes do campo são organizadas em todos maiores, a Atenção necessária para percebê-las eficientemente será menor do que quando as partes são simplesmente observadas separadamente.
Através da organização e do agrupamento de objetos a serem percebidos podemos estender a amplitude da Atenção. Se separarmos nove grãos de feijão em três grupos de três grãos, podemos vê-los mais facilmente. Este é um exemplo simples do princípio segundo o qual a organização tem como função permitir; à pessoa, dirigir a Atenção para maior quantidade de material.
Podemos ver a mesma coisa, de maneira mais significativa, no desenvolvimento de habilidades específicas ou do treinamento. Não é necessário prestar Atenção a uma atividade bem treinada, pela simples razão de que o todo integrado está tão reunido que pode ser realizado sem Atenção as suas partes isoladas. A inspeção de qualidade numa fábrica, por exemplo, é uma atividade tão treinada que o funcionário é capaz de ater-se rapidamente à qualquer coisa que estiver estranha àquilo considerado desejável. Este funcionário desenvolve seu trabalho muito mais rapidamente que outra pessoa não treinada. Assim, é possível perceber, com um simples olhar, situações complexas.
A organização dos objetos facilita para que os estímulos se encaixem na expectativa a ser percebida, sem necessidade de Atenção cuidadosa a cada uma das partes isoladamente. Isso, naturalmente, permite maior eficiência, embora também possa provocar erros que passam desapercebidos, quando estes eventualmente se encaixem bem na organização.
Determinates da Atenção
Falamos comumente da Atenção como
voluntária ou involuntária. A primeira refere-se a casos onde o indivíduo parece
ter liberdade na determinação do foco de sua Atenção, liberdade em escolher
intencionalmente aquilo sobre que prestar Atenção. Entretanto, ao estudarmos a
influência da motivação, do interesse e da afetividade sobre a Atenção essa
simples divisão em voluntária e involuntária ficará mais complicada. De qualquer
forma vamos falar sobre essa divisão.
A Atenção involuntária ou espontânea
refere-se a casos em que a pessoa parece menos o agente de escolha da direção de
sua Atenção do que um joguete nas mãos de forças que a obrigam a atentar para
isso ou aquilo. Numa narração folclórica e acaboclada de um contador de casos
goiano , é cômica a passagem onde diz, diante da censura de sua mulher por ter
olhado demais para outra mulher: "- eu não queria olhar, mas os olhos
queriam...".
Alguns determinantes da Atenção involuntária estão relacionados ao afeto e sentimento dirigidos para o objeto, como é o caso da pessoa faminta dirigir sua Atenção, irresistivelmente, para o alimento da vitrina do restaurante.
Outros determinantes se ligam a características duradouras dos objetos estimulantes. Essas características determinantes podem ser tão solicitantes que acabam atraindo tiranicamente a Atenção, apesar parecer que a pessoa atentou voluntariamente. As características dos estímulos, que exigem Atenção, foram muito estudadas por experimentos de laboratório e por técnicas de propaganda. Esses fatores determinantes do estímulo podem ser sumariados da seguinte maneira:
DETERMINANTE DE... EXEMPLO
intensidade ...................................: o silvo da sirene do carro de bombeiros
repetição ......................................: anúncios na televisão
isolamento ....................................: uma única palavra, na página da revista
movimento e mudança..................: o pisca-pisca no cruzamento da estrada
novidade........................................: o desenho exagerado do último modelo de carro
incongruência ...............................: a mulher fumando um charuto
Tenacidade e Vigilância
Já vimos, no capítulo da
sensopercepção, que o ato de perceber consiste na apreensão de uma totalidade e
que essa totalidade não representa uma simples soma do elementos isolados
captados pelos órgãos sensoriais. O todo sensorial caracteriza uma determinada
forma, e esta forma percebida pelos sentidos será qualitativamente diferente
daquilo que representa suas partes isoladas.
Para a Atenção, também,
somente uma parte das excitações sensoriais adquire relevo, dando origem à uma
forma sobre a qual se polariza a Atenção, enquanto as partes restantes
representam o fundo, menos claro, mais difuso e mais fluido. Aqui, tanto quanto
na sensopercepção, não existem quaisquer elementos isolados, mas apenas fins
totais e integrado para alguma realização pessoal, e serão "claras" e "nítidas"
as percepções contidas no foco da Atenção, "vagas" e "difusas" aquelas que se
encontram além desse foco.
O nível da Atenção depende de vários fatores. Como vimos acima, o principal desses fatores é a ânimo ou o interesse (em outras palavras, o afeto). Quando nos encontramos diante de uma variedade de objetos, a Atenção está dispersa e os diferentes objetos recebem pequenas quantidades de energia e alcançam um grau médio de Atenção. Mas, ao concentrarmos a Atenção num único objeto, toda a energia se orienta neste sentido e os demais objetos ficam numa zona obscura. No entanto, no objeto em que se concentrou a Atenção se descobre uma infinidade de pormenores que haviam passado desapercebidos quando este se achava imerso nos demais. Neste caso a Atenção foi polarizada no objeto escolhido.
Isso significa que dentro do campo da Atenção nem todos os estímulos recebem a mesma conscientização e energia. Vale aqui o alvo inicialmente exemplificado: em torno de uma zona central especialmente iluminada e energicamente acentuada, situam-se zonas de fraca intensidade.
Quando estamos dirigindo o foco principal da Atenção deve estar na estrada e no trânsito à nossa volta. Em nível menos profundo de Atenção estão os acostamentos da estrada, o ruído do motor, os instrumentos do painel do veículo, etc. De um modo geral, o campo de visão mais externo, a visão periférica, utiliza a energia psíquica sem propósito de foco da Atenção, mas apenas como possibilidade para um eventual foco futuro.
Usando ainda o exemplo de dirigir, há também a Atenção de espera, quando então procuramos, espreitamos, espiamos ou exploramos, sem nenhum objeto específico à se focar a Atenção. Digamos que é uma Atenção para as possibilidades. Nesses casos, o objeto da Atenção ainda não se acha presente, tudo é indeterminado, não se conhece o onde, nem o quando do que vai ser percebido. Pode ser que um cachorro atravesse em nossa frente. Esta expectância e incerteza exige que a Atenção percorra continuamente um campo mais amplo para, no caso do objeto aparecer, não o deixar escapar e colocá-lo imediatamente em foco. Para completar esse exemplo temos que entender o que é tenacidade e o que é vigilância.
Bleuler destaca duas qualidades na Atenção: a tenacidade e a vigilância. A tenacidade é a propriedade de manter a Atenção orientada de modo permanente em determinado sentido. A vigilância é a possibilidade de desviar a Atenção para um novo objeto, especialmente para um estímulo do meio exterior. Essas duas qualidades da Atenção se comportam, geralmente, de maneira antagônica, ou seja, quanto mais tenacidade sobre um determinado objeto está se dedicando, menos vigilante estamos em relação à eventuais estímulos a serem apreendidos.
Cisão da Atenção
É quando os objetos da Atenção opõem-se um ao
outro e, por causa disso, não se pode estabelecer uma unidade.Observação das
mais significativas para a Psicopatologia consiste na noção de "cisão" da
Atenção. Este fato pode ocorrer com relativa freqüência em alguns transtornos
psíquicos, criando sérios problemas para a mente que deve atender,
simultaneamente, a objetivos múltiplos ou extremamente contraditórios. No caso
de "cisão", Nos casos mais acentuados, em que se manifestam outros sintomas
concomitantes, a cisão da Atenção pode determinar uma verdadeira desintegração
da mente. Bateson propos a hipótese do "duplo-vínculo", aplicável às situações
insolúveis em que se encontram muitos indivíduos no contexto familiar.
A
situação é descrita como aquela em que uma pessoa transmite à outra duas
mensagens afins, porém contraditórias e incompreensíveis, contendo exigências de
natureza oposta, ao mesmo tempo que trata de impedir que a vítima expresse uma
opinião acerca da incoerência.
O paciente se encontra numa situação singular e insustentável. Não pode adotar nenhuma atitude sem sofrer pressões e exigências contraditórias vindas, geralmente, de parte de um ou de ambos os pais. O fato de não saber para que lado deva se "voltar", para o lado do pai ou da mãe, ocasiona o desmantelamento no interior de si próprio e, externamente, nas relações interpessoais. Cria-se uma situação sem saída para os que se encontram a ela vinculados.
Weakland estabeleceu os princípios da situação de duplo-vínculo criada entre filho-mãe-pai:
1 ) O indivíduo participa de uma relação bastante intensa, isto é, fazem-no sentir que é vitalmente importante que possa distinguir com precisão o tipo de mensagem que lhe está sendo comunicada, a fim de poder responder de forma adequada.
2) O indivíduo está atrapalhado em uma situação em que a outra pessoa que participa da relação expressa duas formas de mensagens contraditórias, nas quais uma é a negação da outra.
3) O indivíduo é incapaz de fazer comentários a respeito das mensagens que se estão expressando, com o fim de corrigir sua discriminação do tipo de mensagem a que deve responder, isto é, não pode realizar uma formulação meta-comunicativa".
Esta situação de duplo-vínculo implica, naturalmente, a "cisão" da Atenção de quem se encontra submetido a esta situação anômala e termina operando a desintegração de uma personalidade em evolução e que não alcançou ainda pleno desenvolvimento.
O começo de um ato de Atenção consiste não só em dirigir a Atenção para o estímulo sensorial, mas, ao mesmo tempo, interromper o estado psíquico anterior. Assim começa uma nova vivência e, se esse processo proporcionava prazer ou não estava ainda terminado, a interrupção é vivenciada como uma perturbação. Por isso, admite-se que a dupla Atenção que um jovem deve prestar aos pais, quando ambos são muito diferentes e expressam opiniões divergentes, contraditórias e conflitantes, determina, como conseqüência, uma "cisão" no processo de Atenção, que termina comprometendo, sobretudo, a parte afetiva da pessoa implicada.
O Ato de Concentrar a Atenção
Alonso Fernandez considera dois
aspectos no ato de concentrar a Atenção: escolher um tema no campo da
consciência, elevando-o à um primeiro plano e; manter esse tema rigorosamente
destacado, sem deixar-se desviar por influências excêntricas do campo da
consciência, modificando-o com plena liberdade. Assim sendo, o individuo lúcido
deve dispor de liberdade diante das vivências, tornando possível o funcionamento
normal da capacidade de concentração .
A primeira fase da Atenção representa
a redução do campo da consciência. A percepção, representação ou conceito que se
acham eventualmente no centro da consciência são percebidos, graças à
concentração da Atenção, com maior clareza, nitidez e delimitação. Esse processo
de concentração pode ser ativo ou passivo, dependendo da situação afetiva do
momento.
Quanto à intencionalidade da Atenção distinguem-se duas formas: a Atenção espontânea e a Atenção voluntária. A Atenção espontânea, como o próprio nome diz, resulta da tendência natural da atividade psíquica em orientar-se espontaneamente para as solicitações sensoriais e sensitivas necessárias à adaptação com a realidade, sem que para tal haja necessidade imperiosa da consciência. Atenção ao andar, ao mastigar antes de engolir, desviar de obstáculos para não cair, Atenção ao manusear objetos, por exemplo.
A Atenção voluntária é aquela que já exige um certo esforço mental para algum determinado fim. Esta atividade psíquica permite que as representações e os conceitos objetos da Atenção permaneçam maior ou menor tempo no campo da consciência. Prestar Atenção à aula, por exemplo. A afetividade, visto em tópico anterior, participa inegavelmente na direção da Atenção voluntária.
Distração
Sob o rótulo de distração existem dois estados
diferentes. Por excesso ou por falta de tenacidade. Primeiro, diz respeito à
dificuldade da Atenção em fixar-se, portanto, falta de tenacidade. A dificuldade
de tenacidade, por si só, não implica, como vimos, em prejuízo obrigatório da
vigilância. Muito pelo contrário. Nos transtornos hipercinéticos das crianças
observamos, quase sempre, uma hiper-vigilância acompanhada de hipo-tenacidade.
Ela desvia sua Atenção diante de qualquer estímulo ambiental.
No segundo caso trata-se do contrário, ou seja, de uma concentração ou tenacidade muito intensa em determinado estímulo, assunto ou representação, que acaba por impedir a apreensão de tudo que não se refere ao motivo principal da Atenção, ou seja, por quase abolição da vigilância. É a distração do preocupado, do sábio ou do estudioso, interessados vivamente e exclusivamente por algum pensamento.
Na distraibilidade do primeiro caso, por falta de tenacidade, ocorre a diminuição da Atenção voluntária e a aumento da Atenção espontânea. No segundo caso, ao contrário, por excesso de tenacidade, como por exemplo na ioga, há aumento da Atenção voluntária e diminuição da Atenção espontânea. Afetivamente podemos dizer que nos estados de euforia a distraibilidade é do primeiro tipo e nos casos depressivos é do segundo, porém, em ambos extremos do humor haverá certamente prejuízo da Atenção.
Compreendido essas duas maneiras de distraibilidade vamos aos nomes
técnicos:
Hiperprosexia
Apesar do prefixo "hiper", há aqui prejuízo da
Atenção. O "hiper" refere-se ao aumento quantitativo da Atenção . Como, em
termos de Atenção, a quantidade pode ser tida como contrária à qualidade, esse
tipo de alteração da Atenção se caracteriza por uma extrema labilidade da
Atenção (voluntária ou tenaz), o que leva o indivíduo a se interessar,
simultaneamente, às mais variadas solicitações sensoriais, sem se fixar sobre
nenhum objeto determinado. Refere-se, pois, a uma hiperatividade da Atenção
espontânea.
Esta super-vigilância acompanhada de sub-tenacidade da Atenção é observada em estados patológicos acompanhados de excitação psicomotora, como é o caso do Episódio de Mania (euforia), no Transtorno Hipercinético da Infância, nas intoxicações exógenas por estimulantes como a cocaína ou anfetaminas, na embriaguez, na esquizofrenia ou mesmo em pessoas normais passando por momentos de grande excitação.
Hipoprosexia
Consiste no enfraquecimento acentuado da Atenção em
todos os seus aspectos, isto é, tanto da Atenção voluntária, quanto da Atenção
espontânea (tenacidade e vigilância). É observada nos estados onde haja
obnubilação da consciência, seja por razões neurológicas ou psiquiátricas.
Também na embriaguez alcoólica aguda ou embriaguez patológica, em casos de
psicoses tóxicas, na amência, nos quadros de demências, na paralisia geral, na
esquizofrenia e em certas reações vivenciais anormais. Os estados depressivos
sempre se acompanham de diminuição da capacidade de concentrar a Atenção,
particularmente nos quadros de depressão ansiosa, que podem chegar, em casos de
estupor melancólico, a uma diminuição acentuada da capacidade de concentrar a
Atenção.
Em enfermos esquizofrênicos inibidos, a Atenção pode estar polarizada para o mundo interno (introspecção), dando ao examinador a impressão de desinteresse completo ao mundo exterior. Quando isso acontece falamos em postura autista. Nos deficientes mentais também se observa déficit da capacidade de Atenção, tanto mais acentuado quanto maior for o grau de deficiência mental, chegando, em alguns casos, à ausência completa de Atenção.
Aprosexia
Aprosexia é a falta absoluta de Atenção, dependendo esse
tipo de transtorno de acentuada deficiência intelectual ou de inibição cortical.
Esse estado difere da insuficiente capacidade de concentração de origem afetiva
e das manifestações autistas dos esquizofrênico. Observa-se a aprosexia na
amência, no estupor e nos estados de demências.
Alteração da
Memória
Hiperminésia
Ocorre Hipermnésia quando lembranças casuais são
evocadas com mais vivacidade e exatidão que normalmente, ou quando se recordam
particularidades que comumente não surgem na consciência. A Hipermnésia pode ser
observada em alguns estados orgânicos, como é o caso das afecções febris
toxi-infecciosas. Nesses casos podem aparecer lembranças da juventude ou da
infância ou de fatos que a pessoa nem sequer tinha mais consciência de sua
existência. Também pode haver Hipermnésia por estimulação hipnótica, onde
recordações de particularidades muito complicadas são revividas com exatidão.
Na Hipermnesia não existe um verdadeiro aumento da memória. O que se observa é, na realidade, uma maior facilidade na evocação dos elementos mnêmicos, normalmente limitados a períodos específicos ou a eventualidades específicas ou, ainda, a experiências revestidas de forte carga afetiva.
Um fenômeno curioso é a Hipermnésia que pode ocorrer em estados que precedem a morte ou quando a pessoa se defronta com situações extremamente ameaçadoras à sobrevivência. Na literatura psiquiátrica há algumas referências de casos onde a pessoa se recorda, em poucos instantes, de todos os acontecimentos da vida com absoluta clareza.
Algumas pessoas que foram salvas da morte iminente por afogamento descrevem que no momento da asfixia pareciam ver toda a sua vida passada, nos seus mais pequenos incidentes. Pareciam ver toda a vida anterior desenrolando-se em sucessão e com pormenores muito precisos, formando um panorama de toda existência . Também Jaspers descreve essas situações limites. Perante o infortúnio, o sofrimento e a morte iminente, diz ele, a existência humana é lançada numa situação anímica extrema.
Hipomnésia e Amnésia
A Hipomnésia e a Amnésia podem ser
consideradas como graus de hipofunção da memória, ou seja, são diminuições do
número de lembranças evocáveis. A Amnésia, por sua vez, seria a desaparição
completa das representações mnêmicas correspondentes a um determinado tempo da
vida do indivíduo". Bleuler prefere o termo debilidade da memória ao invés de
hipomnesia. Ele diz ainda que a Amnésia não precisa ser completa, havendo várias
gradações entre o nada absoluto e a lembrança incompleta.
Segundo Jaspers, "amnésias são perturbações da memória que se estendem a um período de tempo delimitado, do qual nada ou quase nada pode ser evocado (Amnésia parcial), ou ainda a acontecimentos menos nitidamente delimitados no tempo". Em seguida, estuda quatro variedades de Amnésia :
1. Primeiro - Há profunda obnubilação da consciência mais do que perturbação da memória. Como nada se pode aprender na obnubilação, nada se pode fixar, ou seja, como nenhum acontecimento atinge a consciência, não será possível alguma reprodução.
2. Segundo - Aqui verifica-se ser possível a compreensão durante algum período de tempo, porém a capacidade de fixação está profundamente diminuída, não sendo possível reter nada. Isso é comum em psicoses orgânicas, notadamente na Korsakov.
3. Terceiro - É quando certos acontecimentos podem ser compreendidos passageiramente, porém as disposições da memória foram destruídas por um processo orgânico bem delimitado no tempo. É, por exemplo, o que acontece nas amnesias retrógradas, após graves lesões cerebrais, em que desaparecem totalmente as experiências das últimas horas ou dias antes do acidente.
4. Quarto - Trata-se de amnésias extremamente acentuadas, normalmente de origem psicogênica, sendo o principal defeito uma alteração da capacidade de reprodução, apesar da soma das lembranças existentes estar conservada. Nesses casos, muitas vezes a solução é conseguida por meio de hipnose
Existem, aliás mais comumente, Amnésias Parciais, onde se verifica o desaparecimento de algumas lembranças e não de todas elas. Seriam as chamadas Amnésias Sistematizadas Bleuler. Embora possam ser de causa orgânica, como por exemplo, após traumatismo cerebral ou envenenamento, a maioria é de natureza psicogênica. Quando o esquecimento se limita a certos acontecimentos da vida do indivíduo, mas este continua sendo capaz de lembrar outros fatos vividos na mesma época, Bleuler chama de Amnésia catatímica.
Tipos de Amnésia
Amnésia Anterógrada
Amnésia Anterógrada se refere ao esquecimento dos fatos transcorridos depois da causa determinante do distúrbio e o transtorno mais freqüente desse tipo de alteração da memória é o de fixação. Costuma ser devido à uma concomitante perturbação da atenção, tanto da tenacidade quanto da vigilância.
Como a maioria dos casos se deve a alterações orgânicas, é como se houvesse uma diminuição da receptividade do sistema nervoso aos estímulos. A Amnésia Anterógrada pode ser observada em lesões cerebrais agudas ou crônicas, sejam devidas a causas traumáticas, circulatórias ou tóxicas. Os doentes com Amnésia Anterógrada não podem relembrar os fatos recentes, porém, conservando a capacidade para recordar acontecimentos passados mais remotamente.
Nos estados demenciais os graves defeitos da fixação se acompanham freqüentemente de fabulações, ou seja, tentativas do paciente preencher as lacunas mnêmicas com afirmativas completamente aleatórias.
Amnésia Retrógrada
Amnésia Retrógrada é quando ocorre perda da memória
para os fatos ocorridos antes do evento que a causou. Aqui também o dano
cerebral, de qualquer natureza, tem destaque principal entre as causas. Esse
tipo de Amnésia se estende por dias ou semanas anteriores à lesão. Em alguns
raros casos, a Amnésia Retrógrada pode compreender todos os acontecimentos
anteriores da vida do enfermo.
A Amnésia Retrógrada é bastante observada nos quadros neuro-psicológicos senis, após um ictus circulatório cerebral e nos traumatismos cranianos, principalmente quando há perda de consciência. Apesar da sintomatologia exuberante, a Amnésia Retrógrada pode ser reversível, ocorrendo a regressão a partir dos fatos mais antigos para os mais recentes.
Além de neurológica a Amnésia Retrógrada pode ser psicogênica, em conseqüência de traumas emocionais intensos. Nesses casos a Amnésia pode referir-se apenas a determinado período de tempo, limitada a lembranças relacionadas com acontecimentos angustiantes. Nesses casos, na realidade, não há um verdadeiro apagamento mnêmico e a dificuldade da evocação resulta de um mecanismo de defesa (negação).
Amnésia Retroanterógrada
Amnésia Retroanterógrada se refere ao
esquecimento dos fatos ocorridos antes e depois da causa determinante. Trata-se
de uma alteração simultânea da fixação e da evocação. Encontra-se nos casos
graves de demências orgânicas e de traumatismos crânio-encefálicos. O antigo
termo psicorrexe, pouco em uso atualmente, se refere à amnésia de instalação
súbita e total, privando o indivíduo da capacidade de compreensão e de
orientação no tempo e no espaço.
Amnésia Transitória
Amnésia Transitória é, como o nome diz, uma síndrome
amnésica transitória que se caracteriza pela incapacidade de fixar os
acontecimentos recentes. É observada com relativa freqüência na convalescença de
enfermidades toxi-infecciosas graves onde, apesar dos pacientes conservarem boa
capacidade de evocação, manifestam sérios transtornos da orientação
têmporo-espacial, fabulações e perseveração.
Nestes casos de estados toxi-infecciosos graves verificamos um empobrecimento
mental global e simplificação do pensamento, amortecimento da vida emocional,
indiferença, apatia, falta de iniciativa e apragmatismo. Em alguns casos, podem
surgir síndromes de transição confusional e do tipo
paranóide-alucinatória.
Tipos de Amnésia
Paramnésias
Os
distúrbios da qualidade da memória de evocação denominam-se, de modo geral,
paramnesias. Estudam-se neste grupo as seguintes alterações:
1) ilusões mnêmicas;
2) alucinações mnêmicas;
3) fabulações;
4) fenômeno do já visto;
5) criptomnesia;
6) ecmnesia.
Ilusões Mnêmicas
Tratam-se, as Ilusõs Mnêmicas de verdadeiras
lembranças fictícias, ou seja, a recordação vívida de alguma coisa irreal.
Nesses casos haveria um acréscimo de elementos falsos na consciência, os quais
resultariam em lembranças fantásticas como, por exemplo, ter existido antes do
universo, ter vivido 10 mil anos, ser mãe de dezenas de filhos, ter participado
da queda da Bastilha ou da Guerra de Tróia e assim por diante. São algo
diferente dos delírios devido ao fato da pessoa poder descrever minuciosamente
as cenas vividas, algo como um acontecimento oniróide.
As Ilusõs Mnêmicas são a forma mais freqüente de paramnesia e desempenham importante papel na psicopatologia, principalmente na sintomatologia psicótica. Segundo Bleuler, as Ilusõs Mnêmicas constituiriam o principal material para elaboração dos delírios. Bleuler inclui nas Ilusõs Mnêmicas as lembranças imprecisas também observadas no alcoolismo agudo e crônico, nos orgânicos e nos epilépticos.
Entre as Ilusõs Mnêmicas se incluem os falsos reconhecimentos, observados em psicóticos quando, muitas vezes, insistem em identificar o médico ou a enfermeira como uma pessoa de sua família, a quem até atribuem algum nome de sua familiaridade. Nesses casos não se trata de alteração da percepção e sim de formação da Ilusõs Mnêmicas, que leva o paciente a identificar uma pessoa desconhecida com a lembrança de alguém familiar.
Alucinações Mnêmicas
Alucinações Mnêmicas são criações
imaginativas com aparência de reminiscências e lembranças, porém, não
correspondem a nenhuma imagem de épocas passadas. Nos psicóticos surgem,
freqüentemente, lembranças reais de vivências irreais que podem atribuir uma
história de vida completamente diferente. São lembranças que não correspondem a
nenhum acontecimento vivido.
Pacientes pré-demenciais ou demenciais podem apresentar essas Aucinações Mnêmicas como cenas acontecidas recentemente. Uma nossa paciente em início de demenciação insistia que um antigo namorado vinha quase todas as noites visitá-la de carruagem. Descrevia a cena com detalhes minuciosos.
Não se trata de realização de sonhos nem tampouco de alucinação dos sentidos, pois muitos dos acontecimentos são situados no tempo em que o indivíduo normalmente se ocupava do seu cotidiano. Em outros casos, as alucinações da memória são menos sistematizadas e constam apenas de particularidades isoladas.
Fabulações
A Fabulação consiste no relato de temas fantásticos que,
na realidade, nunca aconteceram. Em grande parte, resultam de uma alteração da
fixação e de uma incapacidade para reconhecer como falsas as imagens produzidas
pela fantasia. O conteúdo das fabulações, como bem salientou Lange, procede do
curso habitual da vida anterior, acontecendo muitas vezes que, achando-se
perturbada a capacidade de localizá-las no tempo, lembranças isoladas autênticas
completam erroneamente as lacunas da memória. Nos casos em que existem
alterações dos conceitos e desorganização da vida instintiva, pode-se observar a
produção rica de conteúdos fabulatórios absurdos e inverosímeis, que,
habitualmente, adquirem um aspecto oniróide. Em outros casos, certas imagens
oníricas são rememoradas e atualizadas como lembranças autênticas.
Enquanto
as Fabulações preenchem um vazio da memória e se mostram como que criadas para
este fim, podendo variar de tema e conteúdo, as Alucinações Mnêmicas não mudam,
tal como uma idéia delirante. No sentido mais particular, a Fabulação é, nos
estados em que não há delírio, um sintoma de comprometimento orgânico.
Psicopatologia
Vejamos agora como pode se apresentar a Atenção
e a Memória em alguns estados psíquicos mais encontradiços.
Transtorno Afetivo Bipolar
Nos período de euforia do Transtorno
Afetivo Bipolar, a Atenção se caracteriza por uma exagerada distraibilidade
devido a hiper-vigilância e hipo-tenacidade, portanto, trata-se daquilo que
vimos aqui chamar-se Hiperprosexia. Como a Atenção é muito superficial e
dispersa, detendo-se nos estímulos ambientais, o paciente tem grande dificuldade
para concentrar a Atenção em determinado objeto. Nas fases de leve excitação
maníaca, ou nos estados hipomaníacos, os doentes percebem rapidamente tudo o que
ocorre em torno de sua pessoa, inclusive o que carece de significação,
entretanto, a Atenção só consegue manter-se em cada objeto durante um breve
tempo, voltando-se novamente para novas impressões.
Por outro lado, nos estados de depressão há lentidão e dificuldade de concentrar a Atenção devido à hipo-vigilância e à hipo-tenacidade, ou seja Hipoprosexia. Em alguns pacientes, porém, pode haver aumento da tenacidade da Atenção sobre seus próprios pensamentos de teor negativo e depressivo. Nesses casos haveria super-tenacidade e sub-vigilância: dificilmente o enfermo desvia a Atenção da idéia ou do objeto a que se refere o seu estado mental.
Quanto à Memória nos estados maníacos, sua evocação está, via de regra, exaltada. Diante da menor solicitação da consciência o eufórico tende a reviver uma sucessão ininterrupta de idéias e de imagens mnêmicas. Entretanto, as ligações entre as idéias é fraca e fragmentada.
As combinações dos conceitos e dos juízos se fazem de maneira acidental na euforia e, na maioria das vezes, estabelecem-se relações secundárias e aleatórias, de acordo com assonâncias, rimas e jogo de palavras. As idéias se sucedem sem direção, ao acaso das circunstâncias psicológicas. A Memória das lembranças afluem à consciência em sucessão torrencial e pode remontar à tempos muito pregressos.
O pensamento do eufórico é extremamente dinâmico, instável, salta sem transição de uma idéia a outra (fuga de idéias), as evocações se fazem ao acaso. Os atos intencionais estão todos nivelados para cima, têm igual interesse de ânimo e se atualizam com o mesmo grau de consciência. Mundo exterior, impressões sensoriais, imagens verbais, motoras, tudo se encontra sob o mesmo plano, tudo é vivido com igual intensidade.
Afetivamente as tendências anteriormente reprimidas dos pacientes em crises de euforia tendem a liberação, favorecendo a emotividade e a expansividade exagerada. Os estados afetivos comandam o encadeamento veloz das representações mnêmicas e estas provocam juízos que se expressam eloqüentemente. A Memória exaltada proporciona freqüentes retornos de lembranças agradáveis, suscita pensamentos otimistas, projetos de vida sem uma ordenação adequada. À medida que a excitação maníaca aumenta de intensidade, a hiperevocação automática da Memória cresce de modo progressivo.
Com o evoluir do quadro, apesar da pseudo-hiperprodução mental do eufórico, a evocação eloqüente e automática da Memória, por mais rica e fiel que seja, não serve mais para nada, pois o doente não mais a controla, não escolhe nada de prioritário entre as evocações tumultuosas e as representações incoerentes não podem mais dirigir a atividade no sentido de uma via razoável, prática e objetiva.
Em muitos casos de excitação maníaca observa-se hipermnesia, caracterizada pela revivescência acentuada de lembranças, que fluem à consciência do enfermo em verdadeira avalanche mas, ao contrário de um enriquecimento da Memória, como poderia parecer, há sim um verdadeiro tumulto e uma real desordem da Memória.
Alguns poucos casos o paciente maníaco está incapacitado para relembrar os fatos vividos durante a agitação e, dessa forma, passa a apresentar uma amnésia total ou parcial relativa à fase de agitação maníaca.
Estados depressivos
Nos estados depressivos, as funções psíquicas
também estão perturbadas em seu conjunto, tal como dissemos sobre o sintoma da
Inibição Global dos deprimidos. Os sintomas mais destacados são a tristeza
vital, a angústia e a inibição da psicomotilidade. Entretanto, ao lado desses
sintomas axiais, os enfermos deprimidos se queixam de um sentimento de
impotência psíquica que os impede de realizar as suas tarefas habituais,
diminuição da capacidade de concentração e enfraquecimento da vontade. A Memória
se acha comprometida em suas capacidades de fixação e de evocação. Na maioria
dos casos, os doentes revelam redução da atividade voluntária global, além da
mnêmica.
Estando a Atenção voluntária (tenacidade) e involuntária (vigilância) severamente prejudicadas nos quadros depressivos, automaticamente também estará prejudicada a Memória de Fixação e de Evocação, a primeira pela alterações da Atenção e a Segunda por desinteresse.
Esquizofrenia
A alteração da Atenção que se observa na
Esquizofrenia é, predominantemente, da Atenção voluntária, ou seja, da
tenacidade. O esquizofrênico tem dificuldade para ater-se à temas necessários à
vida pragmática, profissional ou social, embora possa estar desperdiçando a
energia psíquica necessária à Atenção, concentrando-se em temas interiores e
pertinentes à sua própria patologia delirante.
No caso da Esquizofrenia, a alteração da Atenção seria uma conseqüência da alteração da afetividade (embotamento ou empobrecimento) em primeiro lugar, a qual determinaria, em segundo lugar, alteração vontade, sendo esta última imprescindível para a manutenção da Atenção. Na Esquizofrenia Paranóide os pacientes podem ter a Atenção fortemente concentrada em suas alucinações, ou se sentem forçados a polarizar a Atenção para determinados acontecimentos do ambiente. Nestes casos, segundo Bleuler, seria uma espécie de vigilância sistematizada, isto é, uma tendência patológica de relacionar os estímulos do meio externo às concepções delirantes.
Nas esquizofrenias Hebefrênica e Catatônica há grande dificuldade de Atenção, com notável diminuição da Atenção involuntária por indiferença aos acontecimentos externos, sendo muito difícil mobilizar a Atenção voluntária do doente. Nessas psicoses, algumas vezes, pode-se observar uma verdadeira interceptação da Atenção.
Quantitativamente a Memória, por sua vez, não está perturbada na esquizofrenia. Entretanto, a fixação e a capacidade de evocação podem se achar alteradas em função do prejuízo da Atenção e da falta de interesse. Em alguns casos observam-se, como dissemos, alterações qualitativas da Memória, como são os casos de Ilusões e Alucinações Mnêmicas.
Epilepsia
Na epilepsia, a Atenção sofre a influência da
perseveração revelando aumento da tenacidade. Entretanto, de modo geral, este
aumento da tenacidade secundário à perseveração do epiléptico resulta em
prejuízo da extensão dessa tenacidade, isso em virtude de um interesse circular,
repetitivo e pouco prático. Por outro lado, a tenacidade voluntáriamente
invocada para outros temas pode estar severamente prejudicada, principalmente
quando o enfermo concentra a Atenção num tema que se lhe apresenta
obsessivamente muito importante. Quando se promove a variação rápida de temas,
nota-se que a Atenção se fatiga facilmente.
Os epilépticos também estão sujeitos à alguns transtornos da Memória que merecem atenção especial. A Memória dos epilépticos pode ser insegura, principalmente em relação à evocação e na localização das lembranças. Na medida em que a enfermidade progride no tempo, a fixação vai-se tornando cada vez mais difícil. Com muita freqüência, alguns enfermos apresentam esquecimentos de nomes, de datas, de acontecimentos da vida cotidiana (fixação), enquanto conservam de modo perfeito os conhecimentos adquiridos anteriormente (evocação).
Parece que tais alterações mnêmicas dos peilépticos não têm uma relação direta com a freqüência das eventuais convulsões, visto serem observadas também em pacientes cujas crises são controladas pelo tratamento. Alguns autores consideram que estes fenômenos dependentes de elementos subclínicos e demonstráveis no EEG através de um traçado elétrico típico, mesmo o paciente não manifestando alteração clinica.
Nas epilepsias francamente convulsivas, com a evolução da doença aumenta gradativamente a alteração da Memória, revelada pela perda dos conhecimentos adquiridos, pelo estreitamento do círculo de interesses e o empobrecimento dos meios de expressão .
Estado Psicorgânicos e Senis
Nos estados demenciais há,
inegavelmente, um enfraquecimento global e progressivo de todas as funções
intelectuais, incluindo, é lógico, a Atenção e a Memória. Na Atenção o prejuízo
da tenacidade resulta em decréscimo progressivo da concentração, e a diminuição
da vigilância caracteriza uma conseqüente diminuição da extensão e
fatigabilidade rápida da Atenção.
Segundo Bleuler, nos quadros orgânicos senis a Atenção espontânea (vigilância) é alterada antes e mais intensamente do que a Atenção voluntária (tenacidade). Por esse motivo, esses pacientes, apesar de darem a impressão de que estão com a Atenção bem conservada, em termos de tenacidade, costumam atrapalhar-se no pragmatismo cotidiano, onde a vigilância é de suma importância. Esse estado, que freqüentemente acomete idosos, não pode ser atribuído à alteração exclusiva da Memória (que pode estar até bem) mas sim da Atenção.
Nos quadros francamente orgânicos, como aqueles secundários ao envelhecimento cerebral, aos problemas circulatórios e aos traumatismos cranianos, ao contrário dos quadros senis simples onde há alteração da Atenção, verifica-se alterações da fixação e da evocação da Memória. O distúrbio da fixação é observado desde o início, evoluindo progressivamente até alcançar uma completa incapacidade para fixar os acontecimentos novos. Em certos casos, os fatos recentes são recordados, mas rapidamente são esquecidos.
Especialmente na Demência Senil, a evocação se mostra deficiente e os pacientes revelam uma tendência progressiva a utilizarem cada vez menos os seus conhecimentos. Observa-se, nesses casos, a perda da capacidade de evocação, mais acentuada nos acontecimentos mais recentes e menos grave para os acontecimentos mais antigos. É comum os demenciados rememorarem com detalhes histórias muito antigas e não conseguirem evocarem o que comeram no almoço.
Deficiência Mental
Em geral a Deficiência Mental se torna manifesta
e mais prontamente diagnosticada através do atraso geral na aprendizagem. Na
Deficiência Mental há comprometimento global da capacidade intelectual e,
sobretudo, dificuldade de concentração (tenacidade) da Atenção. Em todos os
graus de deficiência mental a Atenção é lenta e fatigável e, por causa disso, as
características especiais da Deficiência Mental serão sempre de natureza
deficitária, evidenciando-se, notadamente, as alterações da fixação e da
evocação da Memória.
Sendo a alteração primária a da Atenção, em muitos casos, os deficientes mentais mostram uma excelente capacidade para a reprodução mecânica da Memória em certas especializações, como por exemplo, acerca de conhecimentos musicais, matemáticos ou visuais.
Nas Alterações do Estado de Consciência
Nos estados confusionais,
observa-se uma crescente dificuldade na percepção do mundo objetivo, com
diminuição da atividade intelectual, diminuição essa que se acentua de maneira
progressiva até atingir todas as formas de atividade psíquica. Uma espécie de
véu espesso cai sobre a consciência: eis aqui os traços essenciais da
obnubilação da consciência nas psicoses sintomáticas. Dentro desse quadro
sintomatológico, as perturbações da Atenção ocupam o primeiro plano. O
interrogatório clínico não progride, em virtude da incapacidade revelada pelo
enfermo para concentrar a tenção e responder às perguntas de modo acentuado. É
necessário repetir as palavras, pressionar, praticar uma verdadeira estimulação
para conseguir que o olhar perdido ou apagado se volte para o interlocutor. Esta
diminuição da Atenção e da capacidade de concentração é característica; é o
elemento essencial e não representa o resultado de distração, nem a conseqüência
de concentração intelectual ou de polarização afetiva sobre uma idéia ou um
sentimento prevalente. Ela se manifesta também por extenuação rápida das
reações; quando o enfermo, em resultado de um grande esforço, consegue
concentrar a Atenção, ela não se mantém por muito tempo vinculada ao objeto.
Na obnubilação da consciência, a Atenção do enfermo é vaga e capta o ambiente
de maneira incompleta e inexata.
Na opinião de Walther-Büel, o transtorno da
Atenção representa o sintoma obrigatório na obnubilação da consciência. "O
indivíduo obnubilado, por não dispor de capacidade de concentração suficiente,
encontra-se à mercê de suas vivências, sem poder participar na configuração das
mesmas".
Transtornos Neuróticos
Habitualmente há fatigabilidade e
distraibilidade da Atenção nas neuroses. Os enfermos se queixam de que não podem
concentrar a Atenção, porque logo se sentem fatigados. Embora a capacidade
intelectual esteja conservada nos pacientes com Transtornos Neuróticos, há quase
sempre uma alteração da Atenção, a qual acaba por se refletir, secundariamente,
na Memória de fixação.
Os pacientes com Transtornos Neuróticos, sejam eles do tipo Fóbico-Ansioso, Obsessivo-Compulsivo, Distímicos ou mesmo Histriônicos costumam se queixar de uma certa fraqueza da Memória. A mesma quesixa que encontramos nos pacientes leigamente considerados com "Esgotamento". O que significa, nesses casos, é uma certa dificuldade de fixar os acontecimentos, particularmente a fixação de assuntos lidos ou de temas de estudo. Observa-se que existe uma oscilação no rendimento da Atenção tenaz e, conseqüentemente da Memória de fixação, muito provavelmente ligada à fadiga e ao desinteresse.
Entre os portadores de Transtornos Neuróticos, são os histéricos que mais costumam apresentar Amnésias Psicogênicas, as quais, como vimos, obedecem a determinados mecanismos de defesa do ego. Em alguns pacientes, entretanto, o que poderia ser tomado por um mecanismo de Negação há, na realidade uma Repressão (outro mecanismo de defesa) por pudor, angústia ou timidez. Nesses casos, não se trata de uma verdadeira Amnésia Psicogênica.