|
ABUSO
SEXUAL NA ADOLESCÊNCIA archivo del portal de recursos
para estudiantes |
Discussões Teóricas e Possibilidades Terapêuticas
Adriana Bisi Nicolau
Resumo
Neste artigo pretendo desenvolver uma
articulação teórico-clínica sobre o tema do abuso sexual a partir do caso de
duas adolescentes que trouxeram uma queixa em comum: a situação de abuso sexual
tendo o pai como protagonista. A história trazida por elas ilustra o que estou
chamando de sedução, trauma e defesas, dentro do contexto de um abuso sexual.
Para desenvolver este tema, percorrerei a adolescência, dando ênfase à
revivência edípica; a sedução em seu aspecto constitucional para o sujeito; o
trauma enquanto repetição e fundador de uma nova ordem. E no que diz respeito à
clínica, abordarei questões relacionadas à transferência e à
contra-transferência, assim como, as possibilidades de elaboração encontradas
pelas adolescentes para lidar com a experiência vivida.
Summary
In this article, I intend to develop
a theoretic-clinical articulation about the sexual abuse theme derived from the
case of two adolescents who brought up the same complaint: the situation of
sexual abuse having the father as the protagonist. The story brought up by them
illustrates what I'm calling seduction, trauma, and defenses, within the context
of sexual abuse. In order to develop this theme, I'll go through the adolescence
period, giving emphasis to the oedipus revival, the seduction in its
constitutional aspect for the being and, the trauma as repetition and founder of
a new order. In relation to the clinic, I'll cover some issues related to
transference and counter-transference, as well as the possibilities of
elaboration found by the adolescents in order to deal with what they had
experienced.
Penso nos frutos que ficam
maduros rápido demais,
e saborosos, quando o bico de um pássaro os
feriu,
e na maturidade precoce de um fruto bichado.
S. Ferenczi
Introdução
O interesse em
desenvolver um trabalho tendo como tema o abuso sexual e a sua articulação com
as teorias da sedução e do trauma, partiu de minha experiência clínica de base
psicanalítica com duas adolescentes de quinze e dezesseis anos. O que chamou
atenção nestes dois casos foi a forma pela qual as duas lidaram com uma questão
em comum: um abuso sexual tendo o pai como protagonista. As duas tiveram reações
diferentes, sendo que uma delas com maior possibilidade de elaboração do que a
outra. Com a expressão “abuso sexual”, quero me referir ao contato sexual entre
pai e filha, realizado pelo pai, com o objetivo de se excitar ou de se
satisfazer sexualmente.
Na busca de um respaldo teórico que sustentasse a
clínica destas adolescentes, se fez importante recorrer à Freud, no que se
refere a teoria da Sedução Infantil e sobre a teoria do Trauma; à Laplanche em
seu trabalho sobre a teoria da Sedução Generalizada, onde encontrei uma leitura
crítica e uma amplificação da teoria da sedução infantil de Freud, assim como em
Ferenczi, onde pude compreender melhor o universo da linguagem do adulto e da
criança, que é permeado por códigos e pelo não dito em que a criança busca
decodificá-los participando, muitas vezes, da confusão de linguagem entre os
dois universos, o adulto e o infantil.
Juntamente com o tema do abuso
sexual buscarei relacionar os mecanismos de defesa observados nas pacientes;
apresentar o campo da sedução, a qual é estruturante, inevitável e fundamental
na vida do sujeito e o campo do excesso, onde uma quantidade muito grande de
energia invade o aparelho psíquico fazendo com que o sujeito entre em choque,
caracterizando o trauma.
Penso que este episódio pode ter sido vivido
pelas adolescentes como uma experiência traumática, se levar em consideração as
conseqüências surgidas a partir desta situação e os mecanismos de defesa que
parecem ter sido ativados na tentativa de elaborar e/ou conter tal situação.
Pude observar durante o tratamento psicoterápico que estas defesas,
aparentemente articuladas à experiência traumática, refletiram no convívio
social, familiar, no corpo destas adolescentes e, principalmente, em seu estado
emocional, o qual ficou severamente marcado.
O reencontro com o complexo
de Édipo
A adolescência é reconhecida como uma fase onde irá ocorrer a
revivência inconsciente das fantasias edipianas. Os conflitos na adolescência
refletem a modificação, sobretudo econômica, das pulsões e a tentativa de
colocá-las em harmonia com o ego, o superego e a condição somática da puberdade.
Nesta fase, o indivíduo deve renunciar aos objetivos sexuais endereçados aos
seus primeiros objetos amorosos, pois, assim, reafirma o interdito do incesto e
se sente “livre” para exercitar a sua sexualidade genital a partir das escolhas
que fará, de acordo com a construção de sua identidade sexual. É a partir desta
renúncia, e consequentemente, do investimento em novos objetos, que surgirá no
sujeito transformações produzindo mudanças que levam a uma instabilidade da
imagem corporal e de identidade, que até então eram desconhecidas.
O
abuso sexual é um acontecimento grave e que passa a ter um peso muito maior
quando ocorre nesta fase, onde o conflito edípico é revivido e onde o medo do
incesto está mais forte do que anteriormente, agora que o sujeito tem seu
aparato biológico maduro que possibilita a realização de qualquer desejo
sexual.
A vida sexual dos jovens em amadurecimento é quase inteiramente
restrita ao terreno da fantasia, isto é, há idéias não destinadas a serem
concretizadas. De acordo com Freud no texto “A dissolução do complexo de Édipo”
(1924), a falha na estruturação edípica não estabelece a interdição do desejo
incestuoso, assim, “o ego não provoca mais do que um recalcamento; o complexo
permanece no id no estado inconsciente, mais tarde irá manifestar a sua ação
patológica” (Ibid., p.222).
Entendo pela expressão “mais tarde” usada por
Freud, como o tempo do desenvolvimento da sexualidade em que já existe uma
representação sexual e que irá promover sentido às experiências pré-sexuais do
sujeito. Dessa forma, no presente, a experiência pré-sexual passa a ser
representada como uma vivência excessiva que o sujeito não pode elaborar
satisfatoriamente, tendo, dessa forma, um efeito traumatizante.
No caso
das duas adolescentes atendidas pude perceber que a revivência edípica foi
sentida por elas como algo muito ameaçador, pois a marca edípica da qual têm
registro, está relacionada à uma experiência sexual com o pai, que rompeu a
barreira da fantasia e invadiu o campo da realidade. Portanto, reviver o Édipo é
correr o risco de novamente realizar uma atividade sexual com o pai, seu objeto
de amor fantasmático.
A terapia também despertou a possibilidade de
transformar a revivência edípica numa simbolização edípica, deslocando o pai do
lugar de objeto de desejo sexual para um novo lugar como personagem de suas
fantasias, o que possibilitava, através desta mudança, uma reorganização de
papéis definitiva na adolescência, o que se faz fundamental para uma vida adulta
sexual menos conflituosa. Do ponto de vista do pai que abusa sexualmente, penso
que se trata de um pai que não simbolizou suas questões edípicas e foi remetido
a sua revivência, onde provavelmente falhou o processo de
interdição.
Sedução e Trauma em psicanálise
Pretendo articular a
Teoria da Sedução com o abuso sexual, pensando a sedução como fundamental para o
funcionamento sadio do sujeito, uma vez que permeia todas as relações
interpessoais, promove as primeiras marcas, e é sexual, no sentido em que a
sexualidade é o que move e impulsiona o sujeito para o prazer. É a partir desta
experiência de sedução que o bebê se organiza e se estrutura, com alguém que
exercendo a função materna erotize o seu corpo instaurando o movimento
desejante, que caracteriza o homem como humano e portanto, como “simbolizante”,
“teorizante” e “interpretante” por excelência, uma vez que tem a possibilidade
de resignificar constantemente e construir novas versões de sua história pessoal
(LAPLANCHE, 1988, p.120).
Uma das questões que se coloca é se é possível
reconhecer a partir de qual momento a sedução passa a ser invasiva, tornando-se
abusiva e desorganizadora?
A Teoria da Sedução Infantil de Freud se
desenvolve em três registros solitários e complementares entre si: o temporal, o
tópico e o tradutivo. O registro temporal refere-se a dois acontecimentos
separados no tempo e que permite ao sujeito reagir no segundo tempo de forma
diferente da primeira experiência. O primeiro tempo seria o do terror, em que o
sujeito no estado de despreparo se confronta com uma ação sexual sem que possa
assimilar um sentido para a mesma. A revivescência e o caráter traumatizante
ocorrem a partir da segunda cena, a atual, que entra em “ressonância
associativa” (LAPLANCHE, 1988) com a primeira experiência. Assim, é a lembrança
que funciona como fonte de energia libidinal interna, autotraumatizante e não a
nova cena. Podemos pensar que no primeiro ataque, o externo, o ego está sem
defesas e no segundo tempo já tem defesas adequadas, mas é atacado pelo seu
interior, por suas pulsões. A defesa encontrada pelo ego é o recalcamento o que
Freud chamou de “defesa patológica” (1926). O registro tópico está associado ao
ego como instância mediadora dos ataques internos; e, o tradutivo engloba a
linguagem e todas as formas de comunicação, seria o que Laplanche chama de
“laços interpretativos entre os cenários e as cenas” (1988,
p.112).
Laplanche enuncia que “a confrontação adulto-criança engloba uma
relação essencial de atividade-passividade, e leva em consideração o fato de que
o psiquismo parental é mais rico que o da criança” (Ibid., p.118). Utiliza o
termo confrontação como uma inadequação de linguagem entre o adulto e a criança,
como já havia formulado Ferenczi, para se referir a um questionamento feito à
criança, o qual, antes que ela compreenda, deve dar sentido e resposta. Uma
linguagem que manifesta o inconsciente parental com o sentido “de si mesmo
ignorado” (Ibid., p.118). Lebovici compartilha da leitura de Laplanche quando
diz que em todo adulto perverso existe uma criança perversa e é está quem está
atuando (1995).
Laplanche ainda alerta para que não se confunda sedução
originária com atentado sexual. Descreve três níveis de sedução que atribuem
importância aos fatos da sedução infantil: a “sedução pedófila” (1988, p.119), a
qual é dotada de um caráter perverso e patológico; a “sedução precoce pela mãe”
(Id.), onde Laplanche coloca que no aprofundamento da factualidade o nível da
sedução precoce se esboça, e o pai que outrora era o maior agente da sedução
infantil cede lugar à mãe, especialmente na fase pré-sexual, através dos
cuidados maternos, os quais, além de suprirem as necessidades fisiológicas do
bebê também erotizam as zonas erógenas; e a “sedução originária dos
significantes enigmáticos” (Id.), que estabelece na teoria outros níveis de
sedução.
Assim, percebo que toda sedução é traumática porque deixa marcas
que são sinalizadas pelo significante enigmático e que tanto a sedução quanto o
processo do trauma situam-se num tempo aposteriori, numa sucessão de traduções
onde apenas no segundo momento o sujeito reativa a experiência e ao mesmo tempo
se defende recalcando os representantes pulsionais evocados pela lembrança, uma
alternativa encontrada pelo ego para “resolver” este conflito.
Outra
pergunta que surgiu trabalho com as duas adolescentes foi em relação aos
transtornos possivelmente deixados pela experiência do abuso. Pois, nesses dois
casos em particular, a questão referente ao abuso foi construída durante a
análise, não apareceu como queixa inicial. Foi a partir das atitudes das
pacientes que percebi a desorganização provocada pelo abuso, no caso de Clara2,
fazendo-a atuar constantemente com ações impulsivas e auto-agressivas e, no caso
de Ana3, pela grande necessidade que demonstrava em racionalizar seus
sentimentos fazendo uma grande tentativa em se distanciar dos afetos e daquilo
que lhe afetava, o abuso sexual. Assim, levantei a hipótese de que tais reações
eram o resultado de uma experiência traumática que havia desencadeado uma
desordem emocional.
Freud formula o trauma como um acontecimento que
ocorre em dois tempos. No primeiro tempo a criança vive a sedução de forma
passiva, sem a possibilidade de significá-la sexualmente, o tempo pré-sexual e,
no segundo tempo, um acontecimento atual desperta esta lembrança que agora, em
função da maturidade sexual do sujeito, pode ser significada promovendo o
caráter traumático da vivência. Neste processo o ego é invadido pelas
representações do primeiro tempo do trauma e fica impossibilitado de se defender
pelos meios habituais, tornando-se inundado de tensão e de desprazer,
constituindo o efeito traumático da recordação.
Freud também nos fala que
não é só a criança que está sujeita ao trauma, pois esta não é uma questão
apenas cronológica, o estado de despreparo no adulto ou na criança é o
necessário para que aconteça o traumatismo. A criança, em particular, já se
encontra neste estado de desamparo essencial por natureza e sem recursos diante
da linguagem sexual do adulto (FREUD apud LAPLANCHE, 1988).
O trauma, como
disse anteriormente, é um acontecimento em dois tempos, sendo assim, um fato
atual pode desencadear uma série de pequenos traumas, pré-existentes, fazendo
com que o acúmulo pertinente a sua soma provoque um excesso de excitação no
aparelho psíquico. A função do ambiente nesse caso, seria a de estimular as
fantasias que ativam o afluxo de excitação pulsional. “...Ocorre uma espécie de
simetria entre o perigo externo e o perigo interno: o ego é atacado de dentro,
pelas excitações pulsionais, como é atacado de fora” (Ibid., p.683).
A
partir deste percurso feito sobre a teoria do trauma, percebo que a sedução
originária, o trauma e as defesas do ego estão diretamente associados. A sedução
enquanto fator que funda o trauma e as defesas como a única possibilidade do ego
de lidar com os representantes derivados da sedução, para não se deixar sucumbir
pelo trauma ocasionado pelo acúmulo de excitação. Portanto, o trabalho
relacionado as defesas é uma das alternativas que o terapeuta encontra para pode
situar o momento de vida do sujeito e a forma pela qual está lidando com seus
representantes pulsionais, defensivamente ou em harmonia com as instâncias
psíquicas, sem causar maiores danos ao ego e a sua organização.
Abuso
sexual: possibilidades terapêuticas
Este trabalho exigiu muita dedicação,
tanto por parte da analista quanto das pacientes. A analista foi colocada à
prova diversas vezes pelas pacientes, para poder estabelecer uma relação de
confiança. As faltas intercaladas e o silêncio, algumas vezes intenso,
provocavam desconforto pelos sentimentos que suscitavam na analista, como o de
abandono e de descaso. Tais sentimentos impulsionavam a analista a tomar alguma
atitude que pudesse livrá-la deste desconforto. Contudo, pôde-se perceber a
tempo, através de sua análise pessoal e da supervisão dos casos, que se tratavam
de sentimentos contra-transferenciais, os quais, faziam parte da dialética
analista-paciente e poderiam dar preciosas indicações a respeito do próprio
paciente. O comportamento de ambas adolescentes evidenciava uma enorme
dificuldade em realizar investimentos libidinais e em estabelecer vínculos.
Assim, quando estes sentimentos entre outros puderam ser trabalhados no processo
analítico, foi possível afastar o fantasma da insegurança e construir uma
relação de confiança. A analista permitiu ser objeto de projeções, aceitando o
que elas precisavam colocar nela naquele momento de intensos conflitos e de
ambivalência emocional e, dessa forma, ganhar a confiança que fora depositada
nela e que se instaurou como condição fundamental para a evolução do
processo.
O sentimento de confiança foi peça e chave fundamental em
terapia para que as recordações traumáticas pudessem ser resgatadas e assim,
progressivamente, elaboradas, pois, a marca do abuso permanecia bastante atuante
apesar de estar num estado latente e mostrava que elas haviam sido abusadas por
alguém que desfrutavam de uma relação de confiança como aquela em que agora eram
chamadas a reproduzir. “Esta confiança é aquele algo que estabelece o contraste
entre o presente e um passado insuportável e traumatógeno” (FERENCZI, s.d.,
p.350). Portanto, levando-se em consideração que o trauma também é caracterizado
pelo seu caráter repetitivo, era esperado que os receios e medos fossem
revividos nesta relação transferencial, o que se tornou condição para que
pudéssemos alcançar e reconstruir as representações daquilo que as
traumatizou.
Penso que a repetição atualiza o evento traumático,
possibilitando ao paciente em terapia a criação de um sentido para o trauma,
pois sem a atualização dos conflitos, como promover as transformações? Ferenczi
compartilha desta afirmativa quando infere que “...é possível reproduzir pelo
pensamento os acontecimentos trágicos do passado sem que a reprodução traga uma
nova perda do equilíbrio psíquico” (s.d., p.349). Portanto, é a produção de
sentidos que preenche esta lacuna deixada pela experiência traumática
possibilitando a revivência da mesma sem que isto cause maiores danos ao
sujeito, caso contrário, a evocação do trauma ficaria no vazio quando não é
fornecida a possibilidade de traduzi-lo em linguagem, o que o mantém na esfera
da atuação e não integrado à consciência.
Neste processo analítico também foi
importante lhes mostrar que o setting analítico era um espaço singular e que ali
poderiam falar livremente, podendo a partir daí promover encontros e
desencontros com sua história de vida, o que se fazia fundamental para poderem
lidar com suas frustrações e derrotas e, assim, conseguirem encontrar novas
saídas para seus conflitos. Este era um espaço também, onde as lembranças se
tornariam atuais e passíveis de transformação, marcando a diferença entre a
vivência traumática passada e a revivência atual, a qual estaria permeada por um
sentimento de confiança reconquistado e pela disponibilidade em realizar
investimentos. “A lembrança destes conhecimentos é, aliás, reprimida, até o
tratamento psicanalítico, que lhe dá sua verdadeira significação, não por causa
de sua própria natureza, mas em virtude do sentimento de culpa que exprime a
provocação que os fantasmas contemporâneos organizaram” (LEBOVICI, 1980,
p.125).
Entendo por “fantasmas contemporâneos” a alternativa encontrada pelo
sujeito para falar daquilo que não tem alcance direto, neste caso o trauma.
Assim, a partir de seus conflitos atuais encontramos uma ponte para alcançar as
lembranças que continuam encobertas, disfarçadas. Dessa forma, “a recordação e a
repetição daquilo que não é lembrado se esgotam na elaboração interpretativa,
que permite as construções” (LEBOVICI, Ibid., p.133). Foi trabalhando com as
questões atuais trazidas pelas pacientes que cheguei ao encontro da expressão da
experiência traumática, o que veremos adiante em cada caso em
particular.
Como já frisei algumas vezes, a necessidade de falar da
experiência do abuso se fez durante a terapia, pois as pacientes não chegaram
com o reconhecimento de que este fato lhes trazia desconforto e angústia. O que
revelou que além de algumas dificuldades já citadas, também existem outras
questões que estão inseridas no processo de avaliação dos aspectos do trauma,
quando estes incidem sobre o sujeito. Na clínica, pude perceber pelo menos três,
que estariam diretamente relacionadas ao abuso: a sedução, a culpa e o segredo.
A sedução estaria relacionada ao excesso, naquilo que extrapola o limite do
afeto e aparece como atuação na realização do desejo incestuoso; o segredo
estaria relacionado ao fato de se sentirem física e moralmente sem defesa, para
poder protestar contra a força do agressor, como também, contra o sentimento de
descredibilidade da família, tornando o fato banal e fruto de uma imaginação
criativa; e o sentimento de culpa surgiria enquanto experiência de terrível
realização dos desejos infantis incestuosos, o que poderia resultar para o
sujeito em castigos, punições e retaliações, comandados por um superego severo.
Dessa forma, criar um sentido para a culpa é uma grande tarefa que possibilita a
relativização das pressões e cobranças feitas ao ego, transformando toda a
dinâmica psíquica e sua organização, promovendo a tradução da culpa em linguagem
acessível à consciência.
Como nos diz Ferenczi, “o sujeito é ao mesmo
tempo inocente e culpado, e sua confiança no testemunho de seus próprios
sentidos está quebrada” (s.d., p.352). O que me faz lembrar a fase inicial da
terapia de Ana, onde afirmava que o que havia acontecido “não tinha sido nada” e
achava que “estava tudo bem”. Não se permitia sentir e nem reconhecer o
mal-estar provocado pela situação do abuso, apenas se limitava a dizer “quero
amadurecer”, o que no seu discurso significava “entender melhor as
coisas”.
Conclusão
Neste artigo procurei desenvolver algumas
teorias que penso estarem diretamente ligadas com o tema do abuso sexual, tema
este que surgiu na clínica com as duas adolescentes, mas que também tem grande
importância no campo da saúde mental.
Freud em 1896, não usou termos como
abuso (missbrauch), estupro (vergewaltigung), ataque (angriff), entre outros,
para se referir às crianças que ele supunha terem sido seduzidas sexualmente por
um adulto. Preferiu substituí-los por sedução (verführung), o que implicava, na
visão de alguns autores, alguma forma de participação de um outro.
Os
mecanismos de defesa me mostraram que muitas defesas são resultantes de uma
vivência traumática. Por isso é importante perceber os recursos defensivos
usados pelas pacientes para tentar se livrar da angústia, daquilo que não
conseguem dar direção e nem sentido. Na terapia, o trabalho relacionado à
produção de sentidos, veio principalmente como suporte para que estas
adolescentes pudessem simbolizar seus afetos. Aqueles que estavam sendo
experimentados numa esfera literal, em função do período da adolescência, e
também em decorrência da experiência traumática que viveram, onde o real rompeu
o campo da fantasia arbitrariamente.
Abordar a questão referente ao
trauma também foi fundamental neste trabalho, para que pudesse entender como se
organizam as defesas resultantes do mesmo. Quando entendemos o trauma como a
primeira experiência, como a marca deixada pela sedução, percebemos que esta
marca só vai receber um sentido quando for representada, quando o sujeito
vivenciar uma experiência que o remeta associativamente a esta marca original, à
sedução original, para a partir daí, ter um sentido traumático, pois como
sabemos, na primeira experiência de sedução o sujeito não tem recursos para
representá-la e ao fazer, percebe que se trata de algo que não pode elaborar
pelas vias habituais por ser muito intenso e paralisante para o ego, alterando
sua organização. Foi no trabalho de análise que surgiu a possibilidade de
organizar essas questões, que outrora estavam imersas no caos, onde as pacientes
procuraram encontrar vias de simbolização e novos recursos para lidar com
conteúdos da sua sexualidade.
A partir da abordagem psicanalítica, como
base teórica do trabalho, reafirmo a importância que a psicanálise atribui à
realidade psíquica do sujeito, sem que este pressuposto leve-a a negar a
importância dos acontecimentos concretos da realidade externa, uma vez que, em
alguns casos é necessário que a família possa ser orientada quanto aos recursos
assistenciais complementares existentes.
Estou me referindo neste artigo
à sedução estruturante explicada por Laplanche e também à sedução exercida pelo
pai das adolescentes. Acredito que a segunda sedução, ao contrário da primeira,
seja desorganizadora e não estruturante, e seus efeitos podem ser devastadores,
como pretendi ilustrar com os casos clínicos. Porém, é importante enfatizar, que
toda sedução é traumática, porque deixa marcas. Marcas que na infância ainda não
podem ser representadas sexualmente, por se tratar de um período da sexualidade
chamado de pré-sexual, onde o sujeito se encontra sem recursos diante desta
linguagem do adulto, constituída por mensagens sexuais, as quais fazem parte do
inconsciente parental.
O trabalho realizado na clínica com as
adolescentes, veio nos mostrar que apesar da questão delas terem o mesmo
fundamento, o abuso, foi importante preservar a singularidade de cada uma,
permitindo assim, que o processo analítico acompanhasse o ritmo das
pacientes.
Bibliografia:
DRUENNE, M. “Psychothérapies des enfants
Abusés” em Publié sous la direction de GABEL, M. , LEBOVICI, S. , MAZET, P. Le
Traumatisme de l’inceste. France, PUF, 1995.
FERENCZI, S. “Confusão de Língua
entre os Adultos e as Crianças, a Linguagem da Ternura e da Paixão” em Escritos
Psicanalíticos 1909-1933. R.J. Livraria Taurus Editora, s.d..
FREUD, S.
Recordar, Repetir e Elaborar (1914). Edição Standard Brasileira das Obras
Completas de S. Freud. RJ, Ed. Imago. Vol. XII, 1977.
__________A Dissolução
do Complexo de Édipo (1924). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de
S. Freud. RJ, Ed. Imago. Vol. XIX, 1976.
__________A Situação Traumática e as
Situações de Perigo (1926). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de S.
Freud. RJ, Ed. Imago. Vol. XX, 1976.
__________Inibições, Sintomas e
Ansiedade (1926). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud.
RJ, Ed. Imago. Vol. XX, 1977.
IENCARELLI, A. “Traumatismo Psicológico do
Abuso Sexual”. Boletim Científico da SPRJ. Vol. XVIII, nº3, 1997.
LAPLANCHE,
J. Teoria da Sedução Generalizada e outros ensaios. Porto Alegre. Ed. Artes
Médicas, 1988.
LEBOVICI, S. “Quelques Propos d’un Psychanalyste sur les
Controverses Concernant les Découvertes Freudiennes sur les l’Edipe” em Publié
sous la direction de GABEL, M. , LEBOVICI, S. , MAZET, P. Le Traumatisme de
l’inceste. France, PUF, 1995.
LEBOVICI, S. “Ensaio sobre a Natureza do
Traumatismo” em O conhecimento da Criança pela Psicanálise. Rio de Janeiro,
editora Zahar, 1980.
SHERMANN, E. “Em nome do Pai - Adolescência e Morte” em
- Escola Brasileira de Psicanálise. Adolescência: o despertar. Rio de Janeiro,
Kalimeros, 1996.