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A TEORIA DOS GOZOS EM LACAN archivo del portal de recursos
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Márcio Peter de Souza Leite
Um primeiro modelo,de periodização, o mais conhecido, é o proposto por Jacques-Alain Miller em 1982, que divide o ensino de Lacan em três momentos: o imaginário, o simbólico e o real.
I
Periodização do ensino de Lacan
Um primeiro modelo,de periodização, o mais conhecido, é o proposto
por Jacques-Alain Miller em 1982, que divide o ensino de Lacan em três momentos:
o imaginário, o simbólico e o real.
Já Jean-Claude Milner, em A obra
clara [i] , divide o ensino de Lacan em dois momentos. É uma periodização
diferente da feita por Miller porque o critério é diferente. O critério de
Miller é teórico-histórico, o critério de Milner é epistemológico, pois fala da
posição de Lacan frente à teoria da ciência e deste fato retira dois momentos de
Lacan, aos quais ele chama de primeiro e segundo classicismo.
Porem J.A.
Miller propõe uma outra periodização da obra de Lacan diferente daquela de 1982.
No seminário Los signos del goce [ii] , de 1987, ele sugere a idéia de um primeiro
e um segundo Lacan. Essa divisão é baseada na idéia de mudança de axioma. Miller
afirma que em Lacan não há evolução, não há avanço, não há progresso, mas
rupturas.
O conhecimento não é produzido, por acumulação de saber, mas
por mudança de paradigmas que redefine a posição anterior. É isso que Lacan
chama de momento fecundo.
Miller identifica uma mudança de paradigma no
Seminário XIX, Ou Pire, quando Lacan introduz o ?y a de l?Un? , frase que
reformula o paradigma anterior que seria- ?o inconsciente está estruturado como
uma linguagem?, e que implica em não há Um.
A linguagem, na visão de
Saussure, implica que um significante não se significa a si mesmo, que um signo
é sempre uma relação arbitrária entre significante e significado. Logo, para
haver um signo, são necessários dois elementos
Com o Existe D?Um, Lacan
rompe com o modelo de estrutura proposto por Saussure para a linguagem. O signo
passa a ser introduzido pelo Um, passa a significar a si mesmo. Esta mudança de
paradigma é uma inversão do momento anterior do ensino de Lacan, é o que Miller
chama de Segundo Lacan ou Segunda Clínica.
Há ainda um terceiro momento
nas reflexões de Miller, que se dá no seminário A experiência do real na clínica
analítica (1999), onde ele propõe uma divisão do ensino de Lacan em seis
momentos. O critério dessa divisão é o gozo, mostrando a modulação das suas
significações ao longo da obra de Lacan.
II O que é o gozo?
Para pensar noção de gozo em Lacan, pode-se dividir sua obra em antes e
depois do Seminário 20 [iii] , pois há uma mudança radical ocorrrida nesse
Seminário. Antes dele, a principal definição de gozo se referia à concepção
jurídica do termo.
Cito o Seminário 14, A lógica da fantasia, Aula 20,
31.05.1967: ?... seguramente jouissance não foi abordado pela primeira vez no
Robert, podem estudar a palavra no Littré. Verão aí que seu emprego mais
legítimo varia desde a vertente que a terminologia indica, que a liga a júbilo,
à possessão, a algo do qual se dispõe".
Ou seja a noção de gozo para
Lacan é gozar de, que é outra coisa que gozar, por isso pode-se dentificar o
momento anterior ao Seminário 20 como gozo do Outro, ou seja gozar de alguma
coisa.
Do que o sujeito goza? Do Outro..
Cito o Seminário 5, As
formações do inconsciente, aula 18, 9/04/1958, onde Lacan introduz o gozo a
partir da dialética do amo e do escravo,. Para Hegel a condição humana é
determinada pela luta de prestígio, que é uma luta mortífera entre o sujeito e o
Outro, entre a consciência de si e a consciência do Outro.
O sujeito só
tem consciência de si, a partir do Outro. Isto é formalizado por Lacan como o
gozo do Outro. Lacan diz neste seminário: ?Vocês sabem que nessa dialética de
reconhecimento, um tal Hegel a encontrou no conflito de gozo e na luta de morte
donde ele desenvolve toda sua dialética do amo e do escravo?.
Cito o
Seminário 1, Escritos técnicos de Freud, aula 18, de 9/07/1954: ?Com efeito, a
partir da situação mítica, se organiza uma ação e se estabelece a relação do
gozo e do trabalho. Ao escravo se impõe uma lei: satisfazer ao desejo e ao gozo
do outro. Então, Lacan vai afirmar que quem goza é o escravo, que goza de
satisfazer o Outro". Já está separando gozo de desejo.
Diz Lacan no
Seminário 3, As psicoses, aula 3, 30/11/1955: ?O amo tomou do escravo seu gozo,
se apoderou do objeto de desejo enquanto objeto do desejo do escravo, porém
perdeu aí sua humanidade. Não era o objeto de gozo que estava em causa mas a
rivalidade enquanto tal. Sua humanidade, a quem ele a deve? Tão somente ao
reconhecimento do escravo. Mas como ele não reconhece o escravo, esse
reconhecimento não tem literalmente valor nenhum. Assim como ocorre
habitualmente na evolução concreta das coisas, aquele que triunfou e conquistou
o gozo torna-se completamente idiota, incapaz de fazer outra coisa além de
gozar, enquanto que aquele que foi dele privado guarda sua
humanidade?.
Isso reafirma que o gozo está do lado do escravo. Decorre da
condição humana, o sujeito se submeter ao desejo do Outro, para garantir o seu
gozo. Isso é o que mais insiste em todos os seminários de Lacan: a explicação de
gozo a partir da dialética hegeliana.
Se o gozo do amo é de se submeter
ao escravo e Lacan diz que é o escravo que se submete ao amo, Lacan formaliza
isso como gozar do Outro. O sujeito encontra seu gozo no Outro.
Lacan,
Seminário 2, O eu na teoria de Freud, aula 6, 02/01/1955: ?O domínio está
totalmente do lado do escravo, porque ele elabora o seu domínio contra o Mestre.
... Enquanto que inversamente, os outros se considerarão miseráveis, não valem
nada, e pensarão: que feliz é o amo em seu gozo de amo!, enquanto este, claro,
se sentirá totalmente frustrado. Creio que, em última instância, Hegel nos leva
a isso."
O que é tomar posse do Outro? O que é, no sentido do termo
jurídico de gozo, estar na posse de?
Para elaborar estas questões, Lacan
recorre a Marx, e começa a pensar na questão do valor de uso até chegar na mais
valia, onde vai identificar o objeto a ao mais-de-gozar e à mais
valia.
Cito o Seminário 14, A lógica da fantasia, aula 15, 12/04/1967:
?Pretensão singular que nos abre todas as ambigüidades próprias à palavra gozo,
por exemplo no desenvolvimento jurídico implica possessão. Dito de outra
maneira, há alguma coisa que retorna, não é mais que o sexo de nosso toro um
valor de uso que servirá nessa sorte de circulação, que se instaura na ordem
sexual, é a mulher que veio a ser, nessa ocasião, o lugar da transferência deste
valor subtraído ao nível de valor de uso, sob a forma de objeto de
gozo".
Lacan começa a pensar, então, o que é estar na posse de alguma
coisa, no sentido marxista do termo, como o que se acrescenta à matéria pela
operação do trabalhador, e introduz a noção de valor de uso que , por
deslocamento, seria valor de gozo. O que importa ao sujeito é aquilo que tenha
valor de gozo.
No Seminário 14, A lógica da fantasia, aula 16,
19/04/1967, Lacan ao invés de falar em gozo, começa a falar em valor de gozo: ?O
valor de gozo, eu disse, estava no princípio da economia do inconsciente, disse
ainda, sublinhando o artigo de, fala de sexo, não pelo sexo, sim de
sexo?.
O sexo só tem valor pelo valor de gozo. Seu valor ão é pela
descarga que produz, o que importa a Lacan é o valor de gozo que o objeto sexual
produz para o sujeito.
O que um sujeito pode possuir? Pode-se possuir o
Outro? A criança quer possuir a mãe, quer gozar da mãe, mas o gozo é barrado ao
falante enquanto tal.
No entanto, Lacan introduz o corpo como sendo o
Outro. O sujeito goza do Outro; o Outro pensado como corpo. Logo, da única coisa
que o sujeito pode gozar é do seu corpo.
Por isto Lacan no Seminário 14,
A lógica da fantasia, aula 20, 31/05/1967 afirma: "De que goza o amo? A coisa em
Hegel está suficientemente percebida. A relação instaurada pela articulação do
trabalho do escravo, faz que o amo goze, não é no limite, senão forçar um pouco
as coisas?.
Lacan fala que Hegel força um pouco as coisas, fazendo o amo
gozar. ?E quanto a nós, digamos que o amo goza do seu ócio, o que quer dizer, da
disposição do seu corpo?. A partir daí Lacan começa a insistir que o Outro é o
corpo.
Esse percurso privilegia a definição jurídica d egozo como :
?estar na posse de?. Não é o único modo de pensar o goz, mas é o modo principal,
e que nos leva a pensar em tipos de gozo.
Outro critério para pensar o
gozo é defini-lo como satisfação da pulsão. É um critério quase que
universalmente aceito, e é o mais usado.
Como pensar de que maneira
?estar na posse de? satisfaz a pulsão? Não se ensina que a pulsão não se
satisfaz? Então, o gozo é impossível. O gozo do Outro é impossível. O gozo não
se realiza porque a satisfação da pulsão também não existe.
Há um
terceiro modo de pensar o gozo antes do Seminário 20, que é pensá-lo pela
adjetivação. Há o: gozo clitoridiano, gozo masturbatório, gozo masoquista, gozo
da coisa, gozo perverso, gozo da mulher, gozo de Deus
Lacan refere-se a
vários tipos de gozo antes do Seminário 20, porém eles não se encontram
articulados entre si, são expressões do gozo do Outro, são maneiras do sujeito
estar na posse de alguma coisa
Todas as vezes que Lacan faz referencia ao
gozo no Seminário I, ele está se referindo a Hegel. Ele tinha falado em gozo
poucas vezes antes, Ele fala em gozo no texto A Família, e na "Introdução
teórica às funções da psicanálise em criminologia" (Escritos, p. 127), umas duas
ou três vezes.
Portanto existe um tipo fundamental de gozo que é o gozo
do Outro que não vai ter o mesmo sentido que no Seminário 20.
O que vai
adquirir uma diferença grande em Lacan, a partir do Seminário 6, é o gozo
masoquista, que vai levar Lacan a fazer a inversão de que é o escravo quem goza
do amo.
No Seminário 7, Lacan introduz o paradigma do gozo como
satisfação da pulsão, a partir da noção de gozoperverso ou gozo da
transgressão.
No Seminário 8 está enfatizado o gozo do Outro como gozo da
coisa, como gozo proibido.
A partir do Seminário 11, ele retoma Hegel sob
outro ponto de vista e a partir do Seminário 14, aparece a idéia de valor de
gozo, que vai culminar no Seminário 20, definindo p gozo como sendo gozo do
Um
Se o gozo é gozo do Um ele não pode ser gozo do Outro.
Por que
gozo do Outro não pode ser gozo do Um? Pode-se dizer que a partir desse momento
Um vai ser sinônimo de gozo. É uma outra definição de gozo. Por isso falamos da
definição de gozo antes do Seminário 20 para apontar que essa definição é um
deslocamento da concepção do próprio gozo, onde ele é anunciado como gozo do
Um.
Antes o gozo era gozo do Outro, numa referência à linguagem. Não
existe signo. O signo é arbitrário. O significante e o significado nunca
coincidem Então, o saber está sempre no Outro. A verdade está sempre no Outro.
Nada consiste em si mesmo. É um gozo que não se pode alcançar.
Se Lacan
fala em gozo do Um significa que o gozo não está no Outro, mas ele está lá, ele
existe. A mudança de perspectiva é radical.
O que é Um?
O Um tem
uma concepção em filosofia, importante a partir dos neoplatônicos.
O Um
em psicanálise podemos identificá-lo ao corpo, à noção de narcisismo. Um e
narcisismo, em psicanálise, são sinônimos porque o narcisismo é o que faz o Um
do corpo.
Antes do narcisismo o corpo é despedaçado, o que pode ser
pensado pela concepção de estádio do espelho. O narcisismo é o momento psíquico
onde se dá a organização auto-erótica das pulsões parciais em torno de um eixo -
o eu é tomado como objeto de investimento das pulsões. Esse eu é o que faz o Um
do corpo. Então, o eu narcísico , o corpo imaginário, são sinônimos de
Um.
O estádio do espelho é a formalização de Lacan da idéia freudiana da
formação do eu. Constata-se clinicamente que o eu não se forma ao nascer, Lacan
apoia-se na concepção da prematuração específica do sujeito humano, na
observação clínica de que o bebê não mostra uma coordenação motora e que isso
implica na impossibilidade dele se reconhecer como um.
Não há uma unidade
entre a coordençào dos braços, das pernas e da cabeça. Isso vai se dando
céfalo-caudalmente na evolução neuromotora, o que Lacan articula com a
desmielinização do córtex cerebral
No entanto há uma antecipação e o
sujeito capta sua unidade corporal desde o corpo do Outro. Está aí o Estádio do
espelho, que é uma observação empírica feita por Wallon e que mostra que antes
que a criança possa, neurologicamente, articular seus movimentos, ela capta sua
imagem desde o Outro. Essa imagem é a idéia de unidade. Este é um dos Uns da
psicanálise.
O Um freudiano é esse Um imaginário, o Eu como Um. Porém há
outros Uns, tanto em Freud como em Lacan. No momento em que Lacan introduz o
simbólico, o que drá a unidade, o que vai explicar o que determina a
identificação do sujeito, não é mais uma identificação imaginária captada como
corpo próprio.
No simbólico, essa identificação vem do significante, ela
preexiste, e determina o imaginário. Nesse momento, para Lacan, o Um é o traço
unário.
Traço Unario um termo que Lacan tira de Freud de Psicologia das
Massas. A identificação se dá com um traço, se dá com um significante e não com
a imagem. O que determina a identificação do sujeito é um significante que
registra a ausência da falta, chamada por Freud de traço unário,e que é o outro
Um da psicanálise.
Freud identifica o traço mnêmico a um engrama, a um
registro neurológico, da evitação do desprazer. Ë um registro de estado,que
condiciona a vivência de satisfação, que é a causa do desejo,
O desejo
para Freud é um traço mnêmico investido, é uma vivência de satisfação carregada
de libido.
Porém, Lacan se contrapõe à idéia de traço mnêmico. É a
resposta de Lacan à crítica feita por Derrida, em um texto produzido em 67
chamado A cena da escritura em Freud.
Derrida demonstra que o que
condiciona a interpretação em Freud não é o sentido, não é o saber, não é a
compreensão, mas a presença material de um traço, de um registro que determina a
significação dos sonhos e que Derrida vai chamar de letra.
Lacan já usava
este termo desde 57 em "A Instância da letra", onde ele colocava a letra como
causa material do significante.
Porem Lacan vai falar do Um no
real.
O que seria o que sustenta um significante?
Se não há nada
antes da linguagem, tem que haver uma sustentação material que seja em si mesma.
A isso aponta a crítica de Derrida. Tudo levaria a supor que Lacan responde a
essa crítica confirmando que a letra seria um traço mnêmico, um engrama, um
registro psíquico definitivo uma forma de conexão neuronal, como queriam os
colegas de orientação kleiniana.
Lacan, em "Lituraterre", condena essa
noção Esta concepção de registro psíquico comomarca engramatica está presente em
Freud num texto chamado "Bloco Mágico", onde ele estabelece uma comparação com o
bloco magico que é um brinqueo para crianças onde um celofane é superposto a uma
superfície onde se escreve e quando se levanta o celofane automaticamente se
apaga o que está escrito.
No entanto, sempre fica uma marca. Freud diz
que o inconsciente é assim: o recalque apaga as inscrições anteriores, mas tem
sempre uma marca material que fica e que condiciona traços do que é escrito
posteriormente.
Lacan diz que o inconsciente não opera como no Bloco
Mágico. Para Lacan, o significante não é um traço mnêmico, não é um registro
material no sentido neurobiológico do termo, mas no sentido formal do termo. No
sentido do materialismo formal., material é o que produz efeitos
Por que
falamos em materialismo histórico? Porque se o dólar aumenta sentimos na nossa
carteira. O dólar não existe enquanto coisa concreta, não é uma substância. É um
valor de uso dado a um papel que produz efeitos.
Então, a idéia de
materialismo econômico, é a idéia de que existe algo que não precisa ser
concreto, molecular, mas que produz efeitos.
O que seria então o Um no
Real? O Um no Real foi pensado por Lacan através do nó borromeano. Por isso, a
conseqüência do Seminário 20 é a introdução dessa figura
topológica

Os três registros são articulados segundo as
propriedades dessa figura: ela só existe segundo uma certa amarração pois se um
dos elos se solta, os outros dois também se soltam; a conseqüência é : três é
igual a um.
Esta é a idéia de Um no Real, em Lacan.: o nó enquanto
escrita da cadeia formada só por S1.
III Tipos de gozo
A rigor,
os modos de gozo só aparecem depois do Seminário 20. Antes desse Seminário, o
gozo do Outro era multifacetado em gozo do Um, fálico, masturbatório,
clitoridiano, masoquista, do Outro, de Deus...
Lacan articula o gozo de
Deus ao gozo masoquista Lacan se refere à passagem da Bíblia onde Deus pede a
Abraão que sacrifique seu filho e no momento em que ia fazê-lo, Deus o impede.
Toda fé é fundada nesse ato que é para Lacan um modelo de gozo
masoquista.
No Seminário 20, Lacan retorna ao gozo de Deus desde uma
outra posição: vai colocar o gozo de Deus como uma face do gozo da
mulher.
Os tipos de gozo antes do Seminário 20 são todos articulados e
adjetivados a partir do gozo do Outro, são inspirações e não precisões clínicas.
Porém, a partir desse Seminário, pode-se dizer que há uma teoria dos gozos em
Lacan.
O gozo é Um, mas adjetivado, porque ele é sempre a expressão do
mesmo gozo. Passa a ser as maneiras do sujeito conseguir a ilusão de ser Um.
Todo gozo é gozo do Um.
Esses modos de gozo são pensados por Lacan a
partir da articulação dos registros entre si, proposta pela primeira vez em 1974
no texto "A Terceira",
Nela Lacan reapresenta a concepção do sujeito
transformado em parlêtre e seus modos de gozo.
Na interseção entre o
imaginário e o simbólico Lacan coloca o sentido, nomeado como gozo atraves de
uma homofonia: jouissance: jouis, goze, sens, sentido, traduzido como
goza-sentido, quer dizer, a busca da compreensão, buscar na língua uma
completude que produza efeitos de significação.
Na interseção do real com
o simbólico, Lacan coloca o gozo fálico; essa é a novidade do Seminário 20. Está
citado antes, mas não com essa característica que ele adquire nesse
momento.
Neste momento do seminário Lacan está reintroduzindo o corpo na
psicanálise. A crítica anterior é de que a psicanálise lacaniana se dedicava a
dar conta dos modos de produção de sentido, do metabolismo da significação e a
função do analista era produzir um saber baseado na combinatória dos
significantes sendo que em nenhum momento o corpo participavada
significação.
A essa crítica Lacan responde introduzindo o objeto a
partir do Seminário 10 - Isto culmina em Encore, cujo título em francês, é
homofônico a "no corpo", assim Lacan restitui a função do corpo na produção da
significação.
O espantoso é que Lacan vai citar o gozo fálico como gozo
do órgão, quase como gozo sexual, posição que retorna com toda força em Lacan a
partir do Seminário 18..
No Seminário 7, o gozo pode ser lido em Freud
como incesto. O incesto é gozar, é ser Um com o Outro, é ser sem falta, um gozo
narcísico. Seria evitar, escapar à falta.
Para falar em gozo sexual como
gozo do órgão Lacan situa o gozo fálico na detumescência do pênis depois do
orgasmo
Na interseção do Real e o do Imaginário Lacan situa o gozo do
Outro Esse gozo do Outro não é o gozo do Outro pensado como na relação amo -
escravo.
Como entender esse gozo do Outro neste momento? Gozo do Outro é
o que está fora do simbólico, fora da palavra
Gozo fálico é o que está
fora do imaginário, fora do corpo
Sentido é o que está fora do
real.
É uma combinatória possível e muito útil para a clínica pois, por
exemplo, é o que permite pensar o fenômeno psicossomático, que não é um sintoma,
mas um fenômeno, é uma lesão de órgão., que decorre de uma marca que o
significante produziu no corpo. e que existe fora do simbólico, por isso é gozo
do Outro.
Articulando todos esses modos de gozo, no centro, temos o
objeto a, pensado enquanto mais-gozar. Esse é o principal modo de gozo da
sociedade contemporânea.
É a leitura que Lacan faz da condição
capitalista da sociedade atual, apontando que o sujeito procura sua completude
não no sentido, mas no objeto..
Uma conseqüência dos tipos de gozo é a
leitura da sociedade atual, que poderia ser a teoria da cultura de Lacan, que
pensa a cultura não como satisfação do desejo mas como modos de
gozo.
Nesta visão a sociedade capitalista seria condicionada por um modo
de gozo caracterizado pela aquisição de objeto, pelo consumismo ligado a essa
forma de gozo que se apresenta como
mais-de-gozar.
Notas
[i]
MILNER, Jean-Claude. A Obra Clara ? Lacan, a ciência, a filosofia. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.
[ii] MILLER, Jacques-Alain. Los
signos del goce. Buenos Aires: Paidós, 1998.
[iii] LACAN, Jacques. O
Seminário ? livro 20 Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar Ed.,
1975.
MÁRCIO PETER DE SOUZA LEITE. A TEORIA DOS GOZOS EM LACAN
[online]
Disponível na internet via WWW URL:
http://www.educacaoonline.pro.br/a_teoria_dos_gozos.asp
Publicado en Antroposmoderno el 2024-02-05