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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A INTIMIDADE archivo del portal de recursos
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Roberto C. Leal
Inicialmente gostaria de comentar que o tema intimidade é
bastante complexo, pois é normalmente associado a discussão sobre sexualidade,
gênero e/ou as relações/transformações entre as esferas pública e privada. Por
isso, adotei como critério de reflexão, a busca dos nexos que compreendem sua
etimologia, como forma de tornar mais amplo seu significado e explorar sua
função em nossas vidas. Nesse sentido, a partir da escolha deste caminho,
busquei contrapor os aspectos que envolvem este tema com as reconhecidas
características de nossa sociedade contemporânea, especialmente no que concerne
aos grandes centros urbanos.
Sob o ponto de vista psicológico, pode se dizer,
que a intimidade está associada especialmente ao constante jogo que ocorre em
todos nós entre os mundos interno e externo. Nesta perspectiva, também temos de
levar em consideração o individual e o coletivo. Nos termos de Jung, equivaleria
dizer que o processo de individuação considera também a relação com a psique
coletiva e/ou arquétipos. Nossa busca individual não é isolada do mundo, dele
participamos e somos por isso também coletivos.
Freud também corrobora com
essa idéia, como pode ser observado em seu texto intitulado “Psicologia de grupo
e a análise do Ego”, onde elimina a dicotomia entre a psicologia individual e
social, entre indivíduo e sociedade. Ao seu ver, toda a psicologia é social na
medida em que investiga a natureza dos vínculos, pois são os vínculos que
constituem o mundo mental dos indivíduos. Nesse sentido, cada indivíduo é um
ramo, por assim dizer, do social, pois está em relação com os outros. Vale dizer
que no âmbito interno de cada indivíduo encontram-se inscritos objetos e modelos
identificadores do coletivo. As relações, portanto, são fenômenos sociais que
constituem o indivíduo.
Em sua etimologia, a palavra intimidade
caracteriza-se por ser uma qualidade do íntimo, que do latim “intimu” refere-se
ao que está dentro, que atua no interior, que é estreitamente ligado por afeição
ou confiança, próximo, relacionando-se portanto ao sentir. Nessa direção, a
intimidade pode ser considerada a partir do contato interno (consigo mesmo) e
externo (o outro e as coisas).
Anthony Giddens, sociólogo inglês, ao discutir
a transformação da intimidade, afirma que “a intimidade é acima de tudo uma
questão de comunicação emocional, com os outros e consigo mesmo, em um contexto
de igualdade interpessoal”. Isso vale dizer que a intimidade implica também em
relação, vínculo e mais que isso, em alteridade - que portanto reconhece e
considera o outro.
Se ampliarmos um pouco o significado e o sentido de
intimidade, podemos presumir que as qualidades que envolvem essa palavra
referem-se ao contato, seja pelo silêncio consigo mesmo ou pela conversa em um
tom próximo, que poderia ser murmúrio, calmaria ou tranqüilidade, onde o tempo
carrega uma conotação própria associada especialmente ao ritmo singular de cada
indivíduo, onde segredos podem ser confiados ou desvelados. Este ritmo a que me
refiro é bastante peculiar, pois refere-se a possibilidade de fluidez - quando
se está a vontade consigo mesmo e/ou com o outro.
Mas ao considerarmos as
características que definem o sentido do que se pode compreender por intimidade,
nos deparamos com as dificuldades oriundas da sociedade contemporânea. Cabe
assinalar que estas dificuldades têm um caráter histórico, advindas da
racionalidade do homem moderno, cindido pela predominância da razão como forma
de vislumbrar o mundo.
Se o século XX foi notabilizado por um expressivo
avanço tecnológico, verificou-se também um processo crescente de monetização dos
valores, tornando as relações na sociedade cada vez mais dependentes de um mundo
mercadológico. Com a globalização, mesmo o Oriente passou a sofrer forte
influência da dinâmica econômica.
Marshall Berman, historiador americano,
afirma que a modernidade carrega consigo uma profunda ambigüidade e contradição
permanente: destruir, construir, para depois destruir e assim sucessivamente. Ao
mesmo tempo, essa dinâmica é pautada pela velocidade, pela extensiva variedade
de objetos mercadológicos, por um tom mais quantitativo do que qualitativo. A
ação presente descarta o conteúdo do passado, a memória, a história e a cultura.
Vivemos, nesse sentido, em um processo constante de rupturas.
A velocidade é
própria do homem moderno pois o impregna na sua dinâmica de tal forma que sua
capacidade reflexiva parece se restringir em olhar somente na direção do
horizonte, sem olhar para dentro de si e de sua história cultural, cuja memória
seria o instrumento necessário para articular e desenvolver uma reflexão entre
passado e presente.
A modernidade parece impor ao homem uma cadência de fora
para dentro, afetando seu próprio ritmo, seu tempo interno.
Conforme
Christopher Lasch, também historiador americano, o homem oriundo da modernidade
caracteriza-se por um processo crescente de isolamento e empobrecimento
espiritual, entendido como um ser desarticulado, fragmentado, superficial, a
partir da decadência de uma cultura individualista levada ao extremo, uma forma
peculiar de narcisismo.
Este narcisista é marcado ou perseguido pela
ansiedade, não pela culpa. É competitivo em seu desejo de aprovação e
reconhecimento na sociedade. Estaria traduzido por um eu defensivo, voltado para
a sobrevivência, incerto do futuro, inseguro.
Nesse sentido, Lasch afirma
que o “homem psicológico” do século XX é perseguido pela depressão, vagos
descontentamentos e por uma sensação de vazio interior, mas que não busca nem o
auto crescimento individual, nem a transcendência espiritual. Este homem busca a
paz de espírito.
Jung aponta um outro aspecto que poderia propiciar ao homem
moderno um contato mais profundo consigo mesmo, íntimo, que se relaciona à
religião. Segundo Jung, “somente as religiões ultrapassam os sistemas
racionalistas, referindo-se tanto ao homem exterior quanto ao interior”.
Entretanto, Jung constata que a educação anímica geral do homem europeu ou
ocidental mostrou-se falha. Nesse sentido, destaca que a atitude ocidental a
partir de sua religião, dá ênfase ao objeto, em sua mentalidade superficial e
formalística, tendendo a relegar o “modelo” de Cristo a seu aspecto objetal,
transformando-o em um objeto externo de culto, roubando-lhe a misteriosa relação
com o homem interior.
Não é meu propósito nessa discussão estender-me nas
conseqüências que a racionalidade imprimiu (deixou sua marca) historicamente em
nossa sociedade contemporânea. Mas gostaria de salientar que nas duas últimas
décadas do século XX, ao que foi denominado como processo de globalização, pode
ser entendido como um acirramento ou aceleração (velocidade) de um processo
vigente, desde o momento em que a civilização caminhou segundo o princípio da
racionalidade. O homem naquele momento cindiu-se. Separaram-se: corpo e mente,
vida interior e exterior, saber e fazer, subjetivo e objetivo.
Parece-me que
estas constatações tornam a discussão do tema intimidade mais complexo. Pode-se
dizer, em certa medida, que os efeitos provocados historicamente pela
racionalidade na sociedade contemporânea seguem direção oposta ao que se entende
por intimidade. Entretanto, é necessário não esquecer que muitos pensadores,
escritores e artistas buscaram desenvolver não somente a reflexão sobre estes
efeitos, mas apontar caminhos para que não perdêssemos, por assim dizer, nossa
intimidade. Jung certamente pode ser considerado como um pensador extremamente
relevante a esse respeito.
Até aqui vimos que a idéia de intimidade pode ser
relacionada com: proximidade, ligação, relação, vínculo, confiança, interior,
dentro, ritmo, silêncio, conversa.
Parece-me que podemos estabelecer
intimidade conosco através do silêncio, da introspecção, como possibilidade para
poder “escutar” nossa voz interior ou pela visualização de imagens interiores
(sonhos, fantasias). Creio que Jung exemplifica bem este tipo de intimidade
consigo mesmo através do reconhecimento das personalidades nº1 e nº2, comentadas
em suas memórias.
Quando é atribuída à intimidade a idéia de vínculo,
relação, confiança, conclui-se que o contato íntimo se dá também pelo contato
com o outro. O outro é presença de alguém que podemos compartilhar, confiar,
entrar em sintonia (ritmo), fazer-se compreender e buscar ser compreendido.
A presença e o reconhecimento do outro confirma, por assim dizer, nossa
existência e nossa condição no tempo e no espaço - enquanto noção de
permanência, do viver. Vale lembrar que ser e estar carregam, em certa medida,
um mesmo sentido, que podemos atribuir a uma condição do existir: ser é estar
também em relação. Por isso tão importante é a questão da alteridade.
Por
outro lado, a partir do reconhecimento de minha existência pelo outro, posso
compreender melhor meu silêncio e o estar sozinho – minha existência interior.
A intimidade carrega também a idéia de estar estreitamente ligado, em
contato, próximo. Esta ligação pode ser entendida pela via do sentimento. Jung
assinala a importância para a compreensão do uso da palavra sentimento. Para ele
o sentimento não é uma emoção - pois esta é involuntária. O sentir é uma função
racional, isto é organizadora. “O sentimento significa a capacidade de pesar e
avaliar a experiência – no sentido de dizer: eu sinto que isto é uma boa coisa
para fazer – sem precisar analisar ou raciocinar o porquê da ação”.
Hillman
a este respeito salienta que “reduzir o sentimento a uma mera alternativa gostar
– desgostar é uma desvalorização intelectual...O sentimento registra a qualidade
e o valor específico das coisas. E é função do sentimento, precisamente, fazer
essa exploração e amplificação de nuanças e tons, que são o oposto da redução”.
Nesse sentido, segundo Jung, o sentimento é um processo passível de
desenvolvimento.
Desenvolver o sentimento parece ser umas das premissas da
intimidade. Nesse sentido, não se trata de privilegiar o sentimento em
detrimento das demais funções psicológicas apontadas por Jung (intuição,
sensação e pensamento) limitando a discussão, mas de observar seu sentido em
oposição ao pensamento. O desenvolvimento do sentimento pode ser um dos atalhos
para a compreensão de conflitos que o pensamento não consegue resolver.
Tornar-se sensível ao outro pode ser também um caminho para a alteridade e
proximidade.
No consultório, quando nos deparamos com nossos pacientes, nos
damos conta da importância da intimidade. Jung afirmou que “o trabalho analítico
conduzirá mais cedo ou mais tarde ao confronto inevitável entre o eu e o tu, e o
tu e o eu, muito além de qualquer pretexto humano; assim pois é necessário que
tanto o paciente quanto o analista sintam o problema na própria pele; assim o
verdadeiro analista não é aquele que fica ao lado, mas sim dentro do processo”.
Exige portanto o comprometimento do analista por inteiro. Implica por isso em um
laço íntimo com o paciente.
A intimidade relaciona-se como vimos ao que está
dentro, que atua no interior. Podemos constatar portanto que o trabalho
analítico só acontece através do vínculo, do comprometimento por inteiro, de uma
escuta atenta ao ritmo do paciente a partir de uma ligação íntima, onde a
confiança é sua própria condição e confirmação. Este campo e/ou espaço clínico é
nos termos de Jung a possibilidade do encontro alquímico, entendido como
processual, passível de transformação. Estamos na presença do outro e este se
nos apresenta. Estamos ambos dentro do vaso alquímico.
Entretanto é
necessário lembrar que um paciente ao entrar em nossos consultórios carrega
consigo uma história, um ambiente, valores morais e éticos – este ser é
psicossocial. Por isso a questão da intimidade, por sua complexidade nos dias
atuais constitui talvez em um dos desafios mais significativos e recorrentes em
nossos consultórios.
Não estamos do lado de fora do universo sócio-cultural.
Fazemos parte dele, estamos contaminados por assim dizer, pelas estruturas
sociais, relacionamentos e, especialmente, por valores reconhecidos no âmbito
coletivo.
Na pós-modernidade ainda somos todos herdeiros da racionalidade. A
desarticulação e fragmentação características do homem de hoje ao meu ver exigem
uma atitude reflexiva constante, especialmente pela via do sentimento. Seria o
sentimento nossa função inferior?
Nesse sentido, o Homem de nossos dias
parece cada vez mais distante do sofrimento humano. Parece estar mais próximo da
monotonia, tedioso, isolado, buscando a cura, o remédio que evite entrar em
contato consigo mesmo e com o outro - sem enfrentar a dor de
crescer.
Finalmente, criar intimidade é gerar um elo, contato, tensão,
movimento. É relação consigo mesmo e com o outro. Uma ligação entre o interior e
o exterior, entre o passado e o presente, é propiciar proximidade e
cumplicidade, um atalho possível para compreender e conhecer.
Referências Bibliográficas
BERMAN, Marshall. Tudo que é
sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Companhia das Letras, São
Paulo, 1986.
FRANZ, Marie-Louise von e HILLMAN, James. A Tipologia de Jung: I
- A Função Inferior ; II – A Função Sentimento. Editora Cultrix, São Paulo,
1990.
FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e a análise do ego. Obras
Completas, Volume XVIII. Imago Editora, Rio de Janeiro, 1969.
GIDDENS,
Anthony. A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas
Sociedades Modernas. Editora Unesp, São Paulo, 1992.
JUNG, Carl Gustav.
Psicologia e Alquimia. Obras Completas, Volume XII. Editora Vozes,
Petrópolis-RJ, 1994.
________________. Memórias, Sonhos, Reflexões. Editora
Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1990.
________________. O Homem e seus
Símbolos. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro.
LASCH, Christopher. A
cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio.
Editora Imago, Rio de Janeiro, 1983.
________________. O mínimo eu:
sobrevivência psíquica em tempos difíceis. Editora Brasiliense, São Paulo,
1986.