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ABORDAGEM
COGNITIVO-COMPORTAMENTAL DO TRASTORNO DE PÂNICO (1) archivo del portal de recursos
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Lígia Montenegro Ito 2
RESUMO
Diversos estudos clínicos demonstram a eficácia da terapia
cognitivo-comportamental (TCC) no tratamento do transtorno de pânico. A TCC
consiste em ensinar ao paciente procedimentos terapêuticos que visam a redução
dos sintomas físicos da ansiedade (relaxamento e treino de respiração), da
esquiva fóbica (terapia de exposição aos estímulos desencadeantes dos ataques de
pânico) e a modificação dos pensamentos disfuncionais (reestruturação
cognitiva). O tempo de duração é curto e a auto-aplicação, entre as consultas,
das técnicas aprendidas é essencial para o sucesso do tratamento e para a
manutenção da melhora clínica a longo prazo. O presente trabalho descreve as
principais etapas da TCC do transtorno de pânico e alguns fatores que podem
dificultar e facilitar a resposta terapêutica.
ABSTRACT
Cognitive-behavioral therapy for panic disorder
The
efficacy of cognitive behavioural therapy (CBT) for panic disorder has been
demonstrated in many clinical studies. CBT consists of teaching patients
therapeutic procedures to reduce physical symptoms of anxiety (relaxation and
breathing retraining), phobic avoidance (exposure to panic evoking stimulus) and
the modification of dysfunctional thoughts (cognitive restructuring). It is a
short-term therapy and the self-administration of the techniques in between
sessions is essential for its success and maintenance of clinical gains in the
long run. The present article describes the main steps of CBT in panic disorder,
stressing factors which may hinder and facilitate treatment outcome.
O modelo cognitivo-comportamental do transtorno de pânico (TP) procura
integrar as abordagens biológica e sociopsicológica em seus procedimentos
terapêuticos (Barlow, 1988). O ataque de pânico, elemento central desse
transtorno, é considerado uma reação de alerta do organismo, que pode ocorrer em
situações externas, percebidas pelo indivíduo como ameaçadoras, ou sem causa
aparente, por influência de fatores biológicos. Possuir história pessoal ou
familiar de algum transtorno ansioso e submeter-se a um período de estresse são
fatores que contribuem para o aumento da ansiedade geral e que facilitam o
desencadeamento do primeiro ataque. Com a repetição, esses ataques ficam
condicionados a desencadeantes externos (locais ou situações) ou internos
(pensamentos ou sensações corporais), que avaliados negativamente pelo indivíduo
representam sinal de perigo iminente, de morte, de estar enlouquecendo ou
perdendo o controle. Essas sensações levam a um aumento da ansiedade subjetiva,
dos sintomas físicos e das antecipações catastróficas, e a pessoa torna-se
apreensiva, em vigia constante, antecipando os sinais de que um novo ataque irá
acontecer. Pode apresentar comportamentos de esquiva e fobias de situações em
que acha que um ataque ocorrerá; de lugares de onde fugir ou escapar seja
difícil; de condições em que não possa receber ajuda imediata em caso de
necessidade; de sair ou ficar sozinho.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) do TP é composta por um conjunto
de procedimentos que são utilizados de forma integrada e podem, para fins
didáticos, ser subdivididos em aqueles que auxiliam o paciente a lidar com os
sintomas físicos da ansiedade, como o relaxamento e as técnicas cognitivas, os
que visam à redução da esquiva fóbica, como a terapia de exposição aos estímulos
desencadeantes dos ataques de pânico, e a modificação dos pensamentos
disfuncionais, como a reestruturação cognitiva (Craske, Brown e Barlow, 1991;
Lotufo-Neto e Ito, 1997).
O tratamento é breve quando focaliza a redução da ansiedade geral, dos
ataques de pânico e da esquiva fóbica, com duração variando em torno de 20
sessões. Terapeuta e paciente trabalham em colaboração, planejando estratégias
para lidar com as dificuldades enfocadas. A auto-aplicação, entre as consultas,
das técnicas aprendidas é essencial para o sucesso do tratamento e para a
manutenção da melhora clínica a longo prazo. As sessões são planejadas através
de uma agenda que contém os alvos e as metas a serem alcançados na semana, os
procedimentos apresentados, a revisão de diários com as respectivas tarefas de
casa, os acontecimentos importantes relacionados ao tratamento e o planejamento
dos próximos passos. Tarefas de casa são fundamentais para que o paciente possa
praticar os procedimentos aprendidos em consulta e verificar o grau de seu
aprendizado no manejo da ansiedade e dos desencadeantes dos ataques de pânico. A
utilização de diários contendo a coleta acurada e consistente de dados durante
todo o programa de tratamento permite identificar problemas e dificuldades na
realização dos exercícios, adaptar as estratégias usadas e avaliar o progresso
alcançado.
A primeira etapa da terapia é a de avaliação de todos os componentes do transtorno de pânico, como duração e freqüência, e principalmente os desencadeantes do quadro, como fatores de estresse, dificuldades interpessoais, pensamentos ansiogênicos, sensações corporais, ansiedade antecipatória, esquiva fóbica e ataques de pânico limitados, os situacionais e espontâneos. Fatores como presença de depressão ou outras patologias associadas, necessidade de medicação antidepressiva e manejo adequado de tranqüilizantes devem ser avaliados e tratados adequadamente. Problemas decorrentes de complicações do transtorno, como os de origem familiar e conjugal, devem ser identificados e enfocados na fase inicial da terapia. Dificuldades de ordem diversa podem ser abordadas rapidamente, mas se requererem maior tempo e atenção deverão ser, no momento apropriado, encaminhadas para uma psicoterapia mais abrangente.
Terminada a avaliação, inicia-se a fase de informação ao paciente de
todos os aspectos da doença. O modelo cognitivo-comportamental do TP é
apresentado, destacando-se o papel dos pensamentos e dos comportamentos
disfuncionais no desencadeamento de um ataque de pânico e das técnicas da
terapia na modificação dos padrões adquiridos e condicionados. Essas explicações
são repetidas ao longo do tratamento, sempre que necessário, pois a ansiedade
presente no início do tratamento pode prejudicar a atenção e a concentração do
paciente.
Na primeira etapa da terapia, o paciente é informado sobre a hiperventilação,
sua relação com os sintomas físicos do TP e é treinado com exercícios de
relaxamento muscular (Jacobson, 1938) e de controle da respiração (Craske et
al., 1991) para redução e alívio da tensão e da ansiedade geral. É importante
ressaltar que para um bom resultado terapêutico esses exercícios devem ser
praticados diariamente, nas mais diversas situações, até que o paciente esteja
apto a utilizá-los nas situações desencadeantes de ansiedade ou de ataques de
pânico. Em geral, duas a três sessões podem ser dedicadas a essa abordagem dos
sintomas físicos da ansiedade, sendo também importante nessa fase estimular o
paciente a desenvolver alguma atividade esportiva como forma de combater o
estresse e a ansiedade.
A seqüência dos procedimentos a serem utilizados deve respeitar a predominância de sintomatologia do indivíduo. É preferível, no início do tratamento, fornecer ao paciente estratégias de fácil compreensão e pronta execução, que facilitem o restabelecimento da sensação de controle e autoconfiança. O paciente deve perceber que muitos de seus comportamentos e pensamentos estão implicados na ativação e na desativação de seu sistema de alerta e que, com a terapia, é possível intervir nesse processo. Técnicas cognitivas que bloqueiem expectativas negativas, como frases prontas escritas ou mentalizadas, sobre o caráter temporário e inofensivo da ansiedade são úteis e de grande efeito quando associadas aos exercícios de relaxamento. No entanto, uma vez que um ataque de pânico tenha sido deflagrado, a melhor conduta é deixá-lo passar sozinho, pois a luta contra o mesmo apenas gera mais tensão e prolonga o estado ansioso (Clark, 1989; Craske et al., 1991).
A técnica de exposição, que envolve o confronto com os estímulos
desencadeantes dos ataques de pânico até a redução da ansiedade, deve ser
executada inicialmente com o paciente imaginando-se nas situações ansiogênicas e
descrevendo-as da forma mais real possível. O paciente, sentado em uma poltrona
e relaxado, deve descrever as sensações físicas, os pensamentos catastróficos e
os comportamentos adotados na situação de forma detalhada, como se estivesse
ocorrendo naquele exato momento. Esse procedimento deve evocar o medo e as
expectativas negativas do paciente e, através do enfrentamento, ajudar a reduzir
a freqüência e a intensidade da ansiedade antecipatória. Diversas situações de
dificuldade devem ser confrontadas na imaginação até que o desconforto diminua e
que o paciente sinta que possa tolerar a prática da exposição interoceptiva e da
exposição ao vivo.
Na exposição interoceptiva tenta-se reproduzir as sensações físicas que
desencadeiam ou acompanham o ataque de pânico. O modo mais fácil de provocá-las
é através da hiperventilação e de exercícios, como girar em uma cadeira, segurar
a respiração com o tórax cheio de ar, esvaziar o tórax e cruzar os braços ao seu
redor, contraindo os músculos para dentro, correr sem sair do lugar, evocando
pensamentos catastróficos durante os mesmos. Pede-se para o paciente praticar um
exercício por alguns segundos, até a ocorrência de uma sensação física (como
tontura, taquicardia ou falta de ar) acompanhada de medo, e aguardar até que tal
sensação desapareça. Esse exercício deve ser praticado inicialmente na presença
do terapeuta e, depois, como tarefa de casa entre as consultas. A finalidade
desse tipo de exposição é treinar o paciente para enfrentar os sintomas, de
forma controlada, para que ele se sinta capaz de lidar com uma crise de
ansiedade, quando essas ocorrerem nas diversas situações. Esse tipo de exposição
demonstrou ser eficaz na redução dos ataques de pânico (Ito et al., 1995; Ito et
al., 2001).
A exposição ao vivo é essencial no tratamento do medo e dos sintomas de
esquiva e consiste em permanecer em contato por tempo prolongado com as
situações temidas, até que a ansiedade diminua de maneira significativa, cesse
ou habitue. Na aplicação dessa técnica, o paciente constrói uma lista com as
situações desencadeantes dos ataques de pânico, descritas em ordem hierárquica,
ou seja, começando com a que evoca o menor grau de ansiedade e enumerando-as até
a de maior intensidade, podendo incluir locais físicos, como supermercados e
shopping centers; situações de estresse, como reuniões no trabalho; conflito em
relações interpessoais; pensamentos e sensações corporais. A auto-exposição deve
ser estimulada, embora nas primeiras vezes o paciente possa ser acompanhado por
um familiar ou um amigo. O acompanhante, instruído pelo terapeuta, deve ter
conhecimento sobre a doença e sobre os princípios do tratamento, deve ser firme,
mas compreensivo, oferecendo suporte e lembrando ao paciente que, ao confrontar
a situação, o medo irá reduzir.
Durante todas as tarefas de exposição o paciente deve preencher em seu
diário o grau de ansiedade vivido durante o confronto com o estímulo temido, e
quinze ou vinte minutos após, a fim de se verificar o processo de habituação.
Também deve constar no diário, de maneira sistemática, a ocorrência de
pensamentos associados à ansiedade. O paciente deve reconhecer como os
pensamentos e a conversa consigo próprio podem influenciar negativamente suas
emoções (Beck e Emery, 1985) e interferir no processo de habituação da
ansiedade.
Na reestruturação cognitiva o terapeuta define pensamentos negativos
automáticos (PNAs) e orienta o paciente a identificá-los e a monitorá-los antes
de uma crise de pânico e durante. Perguntas como "O que você conversava consigo
mesmo na situação? O que você imaginava que poderia acontecer?" podem facilitar
a identificação dos processos cognitivos associados à ansiedade. As técnicas
cognitivas descritas a seguir são ensinadas ao paciente para ser aplicadas na
vigência de ansiedade e durante as situações de exposição.
Paciente e terapeuta examinam na sessão os PNAs coletados na vigência de
ansiedade ao longo de uma semana. O paciente é estimulado a explorar
alternativas para esses pensamentos, questionando sua veracidade, reduzindo,
assim, o caráter catastrófico dos mesmos. Exemplos recentes na vida do paciente
podem ser avaliados, como, por exemplo, alguma situação em que o paciente previu
um resultado desagradável que posteriormente não ocorreu, ajudando a ilustrar a
rigidez do pensamento ansioso. A seguir, ensina-se ao paciente a analisar os
pensamentos como uma hipótese a ser testada, e não como um fato definitivo. Para
isso, deve reconhecer os principais erros de lógica cometidos, como chegar a uma
conclusão sem evidências e sem considerar todos os aspectos da situação; fazer
uma previsão com base em um número limitado de eventos passados; confundir
probabilidade de ocorrência de um evento com certeza de sua ocorrência; e pensar
em termos de tudo ou nada, negando as nuances ou as formas intermediárias de
acontecimento. A análise dos erros de lógica auxilia na percepção do caráter
disfuncional e irreal dos pensamentos associados à ansiedade, que produzem
mal-estar e colaboram na manutenção do quadro.
A abordagem dos processos cognitivos relacionados à ansiedade também
inclui a discussão detalhada dos fatores temidos, examinando medidas de atitudes
ou comportamentos que podem ser tomados, que não foram levados em consideração
anteriormente. Delinear as conseqüências específicas do acontecimento temido
facilita a conscientização de que há alternativas e que as conseqüências são
manejáveis, suportáveis e limitadas no tempo. Além disso, deve-se estudar as
situações sobre as quais o paciente não tem controle ou responsabilidade, e
focalizar aquelas em que pode atuar de maneira mais eficaz e em que há mais
chances de mudança.
No teste de hipótese, o paciente deve examinar se uma determinada
antecipação é verdadeira ou não, através de uma experiência planejada em que
tenha condição de sucesso. O próprio diário de tarefas de casa pode conter
evidências de que, apesar dos sintomas de pânico e ao contrário de suas
expectativas negativas, o paciente é capaz de realizar atividades de maneira
satisfatória. A auto-sugestão pode ser útil para ajudar a lidar com medos e
crenças ou a realizar uma tarefa que desencadeia ansiedade. O paciente deve
formular frases que melhoram o seu autocontrole quando se prepara para o
confronto com uma situação temida, quando se defronta com estresse, quando está
se sentindo tomado pela situação, e após enfrentar a situação temida. O paciente
deve lembrar que tem controle sobre si próprio, mesmo na vigência de um ataque
de pânico, e que, apesar do desconforto provocado pela situação, pode,
conversando consigo mesmo, entrar e conseguir permanecer na mesma. É o confronto
com a situação e a avaliação correta e realista dos sintomas físicos e dos
pensamentos associados que produzem os melhores efeitos terapêuticos.
A parada do pensamento e as técnicas de focalização da atenção têm o
objetivo de aumentar o controle que o paciente tem sobre seus pensamentos e
imagens. A ruminação ansiosa pode ser interrompida com a imaginação da palavra
"PARE!", ou com a visualização de um sinal de trânsito aceso no vermelho. Após a
interrupção, a atenção deve estar voltada para os detalhes da atividade que está
sendo realizada. Deve-se evitar a distração com pensamentos de que não se está
na situação, ou de que não sente as sensações corporais do pânico. O ideal é
perceber as sensações, lidando com os pensamentos catastróficos irrealistas que
as acompanham.
Os métodos descritos são aplicados a partir do material coletado
semanalmente nos diários do paciente. A ordem de aplicação é determinada pelo
andamento da terapia, cuja reestruturação cognitiva é relacionada com a
modificação de comportamentos de medo e esquiva (Clark, 1989). Se o objetivo se
estende para a modificação das crenças básicas, adquiridas precocemente na vida
do indivíduo e que modulam o modo de a pessoa perceber, sentir e lidar com o
mundo, é necessária uma abordagem cognitiva de enfoque mais amplo. Nesse caso, é
preciso investigar profundamente a história de vida da pessoa para identificar
como suas crenças se formaram e se solidificaram ao longo do tempo.
O tratamento é concluído quando as metas forem atingidas. Alguns sintomas
podem ainda persistir nessa fase, mas esses não devem causar prejuízo. O
paciente é orientado a dar continuidade ao emprego das técnicas aprendidas e
alertado sobre a possibilidade de recaída. É importante que o terapeuta discuta
com o paciente suas expectativas em relação à manutenção de sua melhora clínica,
enfatizando a aprendizagem de controle dos sintomas e as habilidades adquiridas
ao longo do processo de terapia. É útil oferecer um folheto impresso contendo os
passos principais do tratamento e lembretes importantes sobre o manejo das
técnicas, para que possa ser utilizado, se necessário, na recorrência do quadro.
Sessões de seguimento ajudam a esclarecer dúvidas do paciente em relação às
tarefas desempenhadas no pós-tratamento e auxiliam no manejo dos aspectos de
maior dificuldade. Para que a autoconfiança e a independência do paciente sejam
estimuladas, as sessões de seguimento devem ser espaçadas, inicialmente, em
formato quinzenal, e, após algum tempo, mensalmente, até a alta propriamente
dita.
A terapia cognitivo-comportamental do TP produz inúmeros benefícios para
a grande maioria dos pacientes, reduzindo significativamente os sintomas
clínicos. A melhora e os ganhos terapêuticos obtidos produzem, em geral, aumento
da autoconfiança, da assertividade e da auto-estima, melhorando a qualidade de
vida desses pacientes. De fato, é comum o relato de estabilidade do humor em
decorrência da sensação de controle sobre os sintomas ansiosos após a TCC.
Alguns fatores podem dificultar a evolução do tratamento. A TCC tem
interação positiva com antidepressivos, mas seus efeitos podem ser anulados na
vigência de altas doses de benzodiazepínicos e álcool, uma vez que essas
substâncias impedem o processo de habituação e a aquisição de aprendizado
(Marks, 1987). O paciente que comparece à consulta sob o efeito de
tranqüilizantes deve ser alertado sobre a impossibilidade de realização da
terapia nessas condições. Pacientes com longo tempo de duração da doença
compreendem o princípio do tratamento e aprendem a controlar sua ansiedade
durante os procedimentos executados na consulta, mas são incapazes de reproduzir
tal atitude ao vivo nas situações temidas. Isso pode ocorrer em função de
inúmeras variáveis, como: dependência desenvolvida junto aos familiares; a
esquiva ter se tornado um hábito; ou ainda acomodação à limitação. Essas e
outras possibilidades devem ser enfocadas durante a terapia e analisadas como um
obstáculo à melhora do TP.
Procedimentos como a exposição podem ser rigorosos e requererem várias tentativas por parte do paciente até a obtenção do alívio de sintomas. Não é raro o paciente despender vários meses de dedicação intensa para completar tarefas mais difíceis. Além disso, a TCC é considerada um tipo de terapia de alta demanda, pois exige a participação ativa do paciente através da execução de tarefas prescritas, como lição de casa e preenchimento de diários, que funcionam como coleta de informação sobre o problema e orientam o andamento da terapia. O terapeuta deve incentivar cada etapa percorrida pelo paciente e a adesão às técnicas, enfatizando a importância da aquisição da nova aprendizagem no processo de enfrentamento do medo. O esforço sistemático e o desconforto decorrentes da exposição podem produzir, inicialmente, a intensificação momentânea de sintomas de ansiedade, que tende a desaparecer ao longo do tratamento. Entretanto, tal reação inicial pode ser responsável pela rejeição ao tratamento, incluindo abandono e não-adesão. O terapeuta deve antecipar ao paciente esse tipo de dificuldade e mostrar-se disponível a dar suporte tanto pessoalmente quanto através de contatos por telefone, sempre que necessário.
Após o término da terapia, muitos pacientes ainda apresentam sintomas
residuais de ansiedade como apreensão, intolerância e impaciência, que são às
vezes interpretados como presságios de um ataque. Embora tenham aprendido a
impedir a ocorrência de um ataque de pânico, esses pacientes se sentem
decepcionados e queixam-se de não ter atingido a "normalidade". O esclarecimento
acerca desses sintomas e a discussão sobre o tempo requerido para maior
estabilidade do humor podem oferecer alguma tranqüilidade e auxiliar na
compreensão do risco real de uma recaída.
Estudos recentes têm se dedicado à investigação dos aspectos envolvidos
na resposta ao tratamento e ao aperfeiçoamento das técnicas
cognitivo-comportamentais. Os resultados sugerem que a gravidade geral da
doença, envolvendo longa duração, disfunção cognitiva, déficits comportamentais
graves, dificuldades interpessoais, conjugais e familiares, e não apenas um
aspecto isolado, pode contribuir para a resposta terapêutica, independentemente
do tipo de tratamento utilizado (Basoglu et al., 1988). A co-morbidade com
outros quadros psiquiátricos, como alcoolismo, uso de drogas e transtornos de
personalidade, também tem se mostrado um obstáculo ao tratamento. Por outro
lado, características como responsabilidade pessoal para mudança, otimismo em
relação a abordagens psicoterapêuticas, compreensão e aceitação do modelo da TCC
podem facilitar a resposta ao tratamento. De qualquer forma, o diagnóstico
preciso, a avaliação detalhada do problema e o exame de critérios como
obstáculos e facilitadores devem ser considerados na indicação de um paciente
para a TCC.
Investigações futuras devem identificar as características de pacientes
com transtorno de pânico que não respondem à TCC e determinar como esse
tratamento pode ser aprimorado. A aplicação de uma terapia, respeitando-se as
particularidades de cada caso, em que a escolha da técnica seja feita de acordo
com a predominância sintomatológica, pode resultar em maior efeito terapêutico.
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Nota
1 - Texto publicado no Site Cognitivo em 25 de junho de 2002. Fonte: Revista de Psiquiatria Clínica 28 (6):313-317, 2001. Site: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/index.html
2 - Doutora em Psicologia do LIM-23 - Instituto de Psiquiatria HCFMUSP. Endereço para correspondência: Rua Dr. Ovídio Pires de Campos, s/n - São Paulo, SP - CEP 05403-010. Fax: (0xx11) 30696-958. E-mail: ligiaito@usp.br